Campanha
do Araguaia
Ex-militares
depuseram em sigilo à OAB
(parte 1
- parte 2)
DO ENVIADO A BRASÍLIA E GOIÂNIA
O Conselho Federal da OAB guarda em sigilo 11
depoimentos de ex-sargentos, cabos e soldados
do Exército que combateram no Araguaia.
Tomados em 2006 pela Comissão de Direitos
Humanos da entidade, têm relatos sobre presos
e mortos e descrevem torturas a militantes e moradores
suspeitos de ajudar a guerrilha.
Os depoimentos
foram anexados à petição
em que a OAB pede ao Superior Tribunal Militar
apuração de responsabilidades pelo
desaparecimento de documentos sobre a guerrilha.
A documentação sumiu, segundo já
divulgou o governo Lula.
Os depoimentos
reforçam a pretensão da OAB por
indicarem que, no combate à guerrilha,
agentes públicos cometeram crimes variados
e que a documentação desaparecida
pode trazer revelações importantes.
O presidente Cezar Britto conta que os depoentes
procuraram a OAB depois que a Comissão
de Anistia do Ministério da Justiça
não os atendeu. "Eles disseram sofrer
seqüelas por terem sido obrigados a praticar
atos que aviltavam a consciência. Consideravam-se
merecedores do amparo da Lei da Anistia",
afirmou.
Segundo o presidente
da Comissão de Anistia, Paulo Abrão
Pires Júnior, os pedidos poderão
ser analisados.
Ex-combatentes relatam
fraqueza e
afirmam sentir "pânico de guerra'
DO ENVIADO A BRASÍLIA E GOIÂNIA
O ex-fuzileiro naval Dário Lopes da Silva
vive em pânico, o ex-soldado Raimundo Antônio
Pereira de Melo perdeu um testículo e seu
colega Altino Gamboa Miranda, sem forças,
sustenta-se como barbeiro, por não conseguir
carregar peso.
Cada ex-militar
lista nas ações judiciais os problemas
que, segundo eles, foram acarretados pelo período
em que passaram na selva do Araguaia, à
procura dos guerrilheiros. Há também
casos de surdez, cegueira e perda de movimento.
"Pânico
de guerra"
Desde que deixou a Marinha, após o fim
da guerrilha, Lopes da Silva, 59, diz que é
sustentado por parentes. Atingido por tiros e
estilhaços de granadas, que o fragilizaram
emocionalmente e arrancaram parte de um dedo da
mão esquerda, o ex-militar afirma ser vítima
de "pânico de guerra".
"Quem defendeu
a democracia ficou a ver navios. Estive no Araguaia
três vezes. Em 1975, fui internado em uma
clínica psiquiátrica", disse
ele à Folha, mostrando o laudo médico
que atestava "graves alterações
de comportamento, intensa irritabilidade, sem
controle dos impulsos, perturbação
do sono e extrema ansiedade".
Gamboa Miranda,
58, afirma ser incapaz de "carregar 20 kg"
por causa de ferimentos nos pés, tiros
nas pernas e facadas no braço esquerdo.
Para sobreviver, corta cabelos, tarefa que considera
inglória para um homem que enfrentou "guerrilheiros
comunistas" na floresta amazônica.
"Eu, que
combati em nome do país, não tenho
qualquer direito. Eles, que enfrentaram o país,
já receberam indenização.
Fiquei seis anos lá dentro. A gente ia
na frente. Hoje, não tenho nada. Fomos
abandonados, esquecidos", lamenta.
Pereira de Melo,
54, disse que, em 1974, vigiou guerrilheiros presos,
viu as cabeças de três deles apodrecidas
dentro de sacos de estopa e guardou as sepulturas
de dois integrantes do PC do B, Osvaldo da Costa,
o Osvaldão, e Valquíria Afonso da
Costa.
A ordem de vigiar
as covas clandestinas era para evitar o resgate
dos cadáveres enterrados, entre duas palmeiras,
na base militar de Xambioá (norte de Goiás,
hoje Tocantins). Em 2004, com dois ex-militares,
levou representantes da Secretaria de Direitos
Humanos da Presidência ao local. Para sua
surpresa, as escavações ocorreram
em áreas diferentes da apontada pelo grupo.
Circo
"Aquilo foi um circo, com jornalistas, parentes,
curiosos, gente do governo, militares, policiais
federais, centenas de pessoas. O pessoal da secretaria
procurou em um lugar onde não havia nada,
para não achar nada e dar a impressão
à sociedade que estavam procurando os corpos
dos desaparecidos. Não passaram nem perto
do local que marcamos e onde até hoje estão
os corpos de Osvaldão e Valquíria."
Melo é
fundador da Associação dos Ex-Combatentes
da Guerrilha do Araguaia. Cita como principal
seqüela física a perda do testículo
direito, em razão de uma cachumba mal tratada
na selva e, como dano psicológico, os pesadelos
que, segundo diz, o acometem ao menos três
vezes por semana.
O taxista Dorimar
Gomes, 55, preside a associação.
Soldado na campanha contra a guerrilha, ele fala
que só agora os ex-militares decidiram
falar porque antes "ninguém tinha
coragem de enfrentar o Exército".
"Havia o sentimento na tropa de que ali se
cometia muita coisa errada, mas ninguém
ousava contestar."
Nascido em Marabá
(PA), Gomes teve que deixar a cidade após
o fim dos combates, pois "não agüentava
ser chamado de assassino e torturador" e
"ninguém queria me dar emprego".
Foi morar em São Paulo. (SERGIO TORRES)