A
IMPORTÂNCIA DO PENSAMENTO
ESTRATÉGICO BRASILEIRO
Anexo
ao ensaio de autoria do Cel EB Álvaro de Souza
Pinheiro,
"Guerrilha na Amazônia, uma experiência
no passado, o presente e o futuro",
na revista Military Review
www.defesanet.com.br
Cel
Res William W. Mendel
(Exército EUA)
O
artigo do Coronel Álvaro
de Souza Pinheiro sobre a experiência brasileira
na região amazônica capta a atenção
do leitor norte-americano devido à grande semelhança
com a história da "Conquista do Oeste"
nos EUA. Enquanto os Estados Unidos conseguiu controlar
a maior parte do seu Oeste por volta de 1900, o Brasil
ainda se encontra em meio ao processo de trazer ordem
e progresso nas áreas mais remotas de sua região
amazônica. O ensaio do Cel Álvaro pode ser
de grande interesse, em diferentes níveis, para
profissionais de segurança norte-americanos que
trabalham com temas ibero-americanos.
A
Experiência Contraguerrilha
O
artigo começa com uma franca narrativa de como
a história da guerra de guerrilhas na bacia amazônica,
contribuiu para o estabelecimento das fronteiras e para
a formação da nacionalidade brasileira.
Inclui a luta para pacificar os indígenas que ameaçavam
as conquistas luso-brasileiras. A seqüência
de acontecimentos narrada pelo Cel Álvaro a respeito
do combate na selva pode estimular alguns leitores a procurar
mais informações sobre a história
do Brasil (1).
Na
história contemporânea do Brasil, a FOGUERA
(Força de Guerrilha do Araguaia do Partido Comunista
do Brasil), representava a mais séria ameaça
rural à segurança nacional. O relato, desde
a "Operação Carajás 70"
passando pelas operações subseqüentes
conduzidas com a finalidade de neutralizar as ações
guerrilheiras da FOGUERA, descreve o processo de maturidade
das modernas Forças Armadas brasileiras em ações
que influíram na doutrina e na interoperacionalidade
conjunta.
Em
meados de 1974, as forças militares praticamente
haviam neutralizado a guerrilha rural do braço
militar armado do Partido Comunista do Brasil.
Ao
derrotar este movimento guerrilheiro comunista, os brasileiros
não empregaram nem tropas nem assessores estrangeiros.
Este fato marca uma significativa diferença no
contexto da experiência militar latino-americana
e explica o sentimento de orgulho que os integrantes de
suas Forças Armadas têm na defesa do patrimônio
nacional.
O
incidente no Traíra (fevereiro de 1991) teve uma
significativa importância por duas razões.
Foi a primeira vez que soldados brasileiros foram mortos
em ação contra guerrilheiros rurais, desde
o término da campanha contra a FOGUERA em 1974
(2). E o evento contribuiu para que o governo brasileiro
reconhecesse a importância e a necessidade de apoiar
a defesa de sua fronteira. Realmente, de imediato, o Ministro
das Relações Exteriores do Brasil, Francisco
Rezek, alertou ao governo colombiano que o Exército
Brasileiro não podia aceitar este tipo de ação
e que algo teria que ser feito para combater esses grupos
de guerrilha (3). A conseqüência foi o planejamento
e a execução de uma operação
militar conjunta Brasil-Colômbia. De acordo com
o Ministro do Exército Brasileiro, sete guerrilheiros
colombianos foram mortos, quatro foram capturados e, posteriormente,
entregues ao Exército Colombiano.
O
incidente também confirmou a necessidade de tropas
na fronteira. Desde 1920, o Exército Brasileiro
tem um programa de vigilância de fronteira. Hoje,
cinco batalhões de infantaria de selva patrulham
as áreas de fronteira da Amazônia brasileira,
que compreende cerca de 60% do território nacional.
A missão desses batalhões é bastante
complexa em função das "características
da Amazônia brasileira", descritas pelo Ministro
do Exército, no seu depoimento ao Congresso Nacional
em 1991:
-
grande extensão da região;
- pobre rede de transportes, principalmente ribeirinha;
- pequena e diversificada população;
- dificuldade na manutenção da presença
do governo;
- tribos indígenas, de uma maneira geral, ignoram
a fronteira;
- presença e ação predatória
de garimpeiros de diferentes países que, atraídos
pelo ouro, corrompem os índios e operam em
diversas áreas sem autorização
e sem respeito pelo meio-ambiente e pelas fronteiras
nacionais;
- ações de missões religiosas
estrangeiras que nem sempre trabalham na sua função
religiosa;
- presença de grupos de guerrilha organizados
e poderosos cartéis de drogas em países
vizinhos;
- intervenção de grupos multinacionais
sob várias justificativas: meio-ambiente, direitos
indígenas, e internacionalização
da floresta tropical;
- dificuldade dos países vizinhos na vigilância
de suas fronteiras (4). |
Enfrentando
os "Fenômenos da Área Cinza"
O
artigo do Cel Álvaro também contém
valiosos ensinamentos colhidos concernentes a assuntos
de interesse dos elaboradores de políticas e estrategistas
norte-americanos. Estes assuntos incluem: o reconhecimento
do imediato perigo ao bem-estar nacional representado
pelos "Fenômenos da Área Cinza",
quais sejam: tráfico de drogas, insurreição,
contrabando, desrespeito à lei, pobreza e fluxos
de migração; desenvolvendo a cooperação
e a integração interagências de modo
a atingir os objetivos políticos, especialmente
integrando os recursos e as operações militares
com aquelas desenvolvidas pelas demais agências
governamentais; e definindo unidade de comando em determinadas
áreas operacionais. Temas similares também
afetam o desenvolvimento do planejamento estratégico
norte-americano, e suas resoluções permanecem
problemáticas (5).
No
início dos anos 1990, o Comando Sul norte-americano
desencadeou ações para incrementar a cooperação
interagências e a integração dos recursos
no esforço de enfrentar os "Fenômenos
da Área Cinza", especificamente, o narcotráfico
e a insurreição, na área sob sua
responsabilidade. Por volta de 1994, os recursos financeiros
para tais iniciativas foram perdidos, em função
de cortes no orçamento militar.
"Guerrilhas
na Amazônia Brasileira" demonstra o reconhecimento
brasileiro de que alguns "Fenômenos da Área
Cinza" são uma ameaça à soberania
nacional. Somente recentemente, a liderança nacional
norte-americana colocou ênfase nesses tipos de ameaças
aos seus interesses. Isto ficou particularmente registrado
na Estratégia Nacional de Segurança, do
Presidente Bill Clinton, que estabelece: "fenômenos
transnacionais tais como terrorismo, tráfico de
narcóticos, degradação ambiental,
exaustão de recursos naturais, rápido crescimento
da população, e fluxos de refugiados, também
apresentam implicações na segurança
tanto no presente quanto no futuro da política
norte-americana. Acrescente-se a isso uma classe emergente
de questões ambientais transnacionais que estão
progressivamente afetando a estabilidade internacional
e, conseqüentemente, constituirão desafios
à segurança dos Estados Unidos"(6).
O
desenvolvimento econômico de estados da Amazônia
brasileira tais como Roraima, Amazonas, Acre e Rondônia
tem alarmado parcela da comunidade internacional que teme
que o crescente acesso e a utilização dos
recursos naturais da Amazônia brasileira trarão
danos ao meio-ambiente global.
A
preocupação do Cel Álvaro relacionada
às declarações do Presidente francês
François Mitterand sobre o direito de intervenção
nos assuntos internos de outros países, quando
certas questões afetarem, de alguma forma, o meio-ambiente,
sugere potenciais ameaças à soberania brasileira.
Por
outro lado, a percepção de que os Estados
Unidos também possui objetivos a atingir no Brasil
tem crescido, nos últimos anos, entre aqueles brasileiros
que tem preocupações quanto à política
norte-americana de intervenção, e entre
outros que encontram, neste tema, um oportuno veículo
para uma postura política doméstica. Por
exemplo, um editorial de um jornal de São Paulo
intitulado "Brasil Cercado" adverte seus leitores
a respeito do avanço de uma teoria identificada
como "do cerco" , sugerindo que "a presença
de soldados americanos na região amazônica
está suficientemente provada. Afinal de contas,
não estão eles também na Colômbia,
Venezuela, Peru, Bolívia, Paraguai e até
na Argentina? Que interesses os Estados Unidos estão
perseguindo nesses países, que não pressionar
o Brasil, monitorando seu espaço aéreo por
meio de poderosos radares? Por que pretendem os EUA estabelecer
um cerco ao Brasil? Porque o Brasil é o único
país em desenvolvimento capaz de solapar o real
poder exercido por vastos setores econômicos norte-americanos,
ao mesmo tempo que proclama aos mentores de restrições
ambientais - nós podemos chegar ao Pacífico!"(7).
Enxergando
além da hipótese de uma intervenção
norte-americana na Amazônia, o Cel Álvaro
identificou contundentes ameaças que representam
uma dinâmica dos "Fenômenos da Área
Cinzenta" que os especialistas em segurança
dos EUA não podem ignorar. Trata-se da conexão
entre a guerrilha e o narcotráfico.
Desde
o envolvimento norte-americano nos conflitos em El Salvador
e na Nicarágua nos anos 1980, o apoio às
ações de contra-insurreição
tornou-se impopular. Entretanto, foram custeadas operações
contra-drogas fora do território nacional dos EUA.
Isto conduziu a um entendimento muito peculiar em alguns
círculos interagências norte-americanos de
que não há uma clara ligação
entre o tráfico de drogas e os grupos de guerrilha.
Porém, com base na real experiência vivenciada
nas regiões fronteiriças brasileiras, o
Cel Álvaro alerta: "O problema tem uma raiz
nas fortes conexões entre as guerrilhas alienígenas
e os traficantes de drogas, criando o fenômeno das
narcoguerrilhas, particularmente, no Peru e na Colômbia.
Esta situação pode ocasionar crises que
venham a ameaçar os interesses vitais do Brasil
na Amazônia, em particular, os relacionados à
soberania e à integridade do patrimônio nacional."
O
Brasil tem realizado ações diretas contra
as narcoguerrilhas como um objetivo na sua estratégia
contra-drogas. A estratégia norte-americana para
os países andinos visando a redução
do tráfego ilícito de drogas para os EUA
permanecerá problemática até que
a conexão narcoguerrilha seja reconhecida no planejamento
da campanha contra-drogas.
Descrevendo
as operações militares nas regiões
fronteiriças brasileiras, o Cel Álvaro considera
importante a integração dos recursos das
diferentes agências. Os líderes militares
brasileiros reconheceram a necessidade de uma cooperação
interagências de modo a integrar as operações
contraguerrilha com outras organizações
governamentais federais e estaduais. Como o Cel Álvaro
registra: "Há necessidade de uma efetiva ação
governamental, coordenada nos níveis federal, estadual
e municipal".
O
problema do estabelecimento de uma chefia regional ou
uma agência líder foi resolvido pela definição
de que o Comando Militar da Amazônia seria o quartel-general,
com o controle de todas as unidades, incluindo algumas
agências governamentais civis, federais e estaduais.
Neste caso, as Forças Armadas foram vistas como
possuidoras das estruturas mais capacitadas ao complexo
comando e controle das operações civis e
militares. Embora este modelo possa não atender
plenamente às demandas interagências norte-americanas,
o importante é que as autoridades brasileiras tomaram
a iniciativa, definiram responsabilidades e integraram
as ações interagências.
A Estratégia da Lassidão(c)
A
Estratégia da Lassidão brasileira consiste
de planejamentos visando a defesa do território
nacional contra forças alienígenas de intervenção.
Esta estratégia tem como finalidade desgastar o
inimigo, exaurindo sua vontade nacional. Certamente, ela
demonstra o quão séria é a intenção
de manter a soberania nacional na Amazônia brasileira
e oferece uma visão brasileira das ameaças
de intervenção estrangeira. O mais interessante
é que os estrategistas militares brasileiros foram
capazes de estender sua perspectiva de defesa nacional
além das visões restritas, hoje existentes,
dos arraigados conceitos de aniquilamento, considerando
uma série de opções mais apropriadas
para tal situação. Os planejadores militares
norte-americanos podem avaliar se a atual doutrina militar
e o conseqüente adestramento de estado-maior, os
quais demandam respostas prontas e decisivas, podem facilitar
ou mesmo permitir avaliações a respeito
das estratégias estilo guerra de atrito (8).
A
Estratégia da Lassidão é uma forma
de guerra de atrito que se adapta às vastas áreas
da região amazônica brasileira. Destaque-se
que é similar em intenção ao Plano
Nacional de Defesa do México contra intervenções
no solo mexicano. A estratégia mexicana é
fundamentada na utilização de forças
regulares e irregulares na condução de uma
extensiva guerra irregular contra uma força de
intervenção estrangeira (9). Similarmente,
as operações brasileiras empregarão
forças combinadas utilizando predominantemente
conceitos de guerra irregular para desgastar e exaurir
um invasor.
Ainda
que um cenário como este, de uma invasão
de território brasileiro, seja de muito difícil
concepção por parte dos estrategistas norte-americanos,
as Forças Armadas brasileiras deverão considerar
com seriedade os possíveis perigos ao seu patrimônio
nacional.
Ainda
é muito popular citar Carl von Clausewitz nos círculos
militares norte-americanos. "A guerra é um
ato de força e não há um limite lógico
para a aplicação dessa força"
(10). Os estrategistas militares dos EUA não consideram
as assertivas do General russo Aleksandr Svechin que nos
chama a atenção que há outras considerações
além da busca da batalha decisiva. O General Svechin
visualiza uma série de formas intermediárias
de operações militares entre os extremos
de destruição da guerra de atrito. Segundo
ele, "o termo atrito é uma expressão
muito pobre para definir todos os diversos matizes dos
diferentes métodos estratégicos fora do
conceito de destruição...Uma estratégia
de destruição é unificada e demanda
por uma única e correta decisão. Só
é possível determinar o nível de
intensidade necessário para uma situação
específica, por intermédio de um criterioso
estudo das condições políticas e
econômicas" (11).
Esta
é exatamente a interpretação efetuada
pelos estrategistas militares brasileiros quando da formulação
da sua "Estratégia da Lassidão".
Os elementos do poder nacional brasileiro, político,
econômico e militar, são profundamente considerados
quando das definições relativas às
ações estratégicas a realizar, em
função da missão, ameaça,
geografia, tempo e estrutura da força.
O
Cel álvaro também demonstra o quanto os
estrategistas brasileiros consideram o princípio
de Clausewitz da "notável tríade",
a imperiosa necessidade de, na guerra, manter-se um equilíbrio
entre o povo, o exército e o governo. Segundo a
doutrina de Clausewitz, "as paixões que devem
ser contempladas na guerra devem, primeiramente, empolgar
a população" (12). Na condução
da Estratégia da Lassidão fica clara a imperiosa
necessidade do apoio da população.
O
artigo do Cel álvaro proporciona ao leitor norte-americano
uma concisa narrativa de combate na selva. Porém,
o verdadeiro significado para a política e o planejamento
norte-americanos, deste exemplo do pensamento estratégico
brasileiro, repousa na descrição da intenção
político-militar e na sua utilização
como um conceito de enfrentamento de alguns dos "Fenômenos
da Área Cinza" atualmente existentes.
Notas
do Autor
(1) Gilberto Freyre, "Ordem e Progresso"
(em inglês), reportando a história do Brasil
dos anos 1800 a 1914.
(2) Gen Carlos Tinoco, "Exército-Amazônia-Traíra",
exposição do Ministro do Exército
ao Senado Federal.
(3) "O ataque da guerrilha", revista
Veja, edição de 6 de março de 1991.
(4) Gen Carlos Tinoco, "Exército-Amazônia-Traíra",
exposição do Ministro do Exército
ao Senado Federal.
(5) William Mendel e David G. Bradford, "Interagency
Cooperation: a Regional Model for Overseas Operations",
Mar 1995.
(6) Presidente Bill Clinton, "National Security
Strategy", Feb 1995.
(7) "Anti-Americanism Resurfacing", FBIS-LAT-93-158
Daily Report (São Paulo, Brasil, 18 agosto 1993).
(8) Gen John M. Shalikashivili, "National Military
Strategy", Feb 1995.
(9) Gen Ignacio Ramirez, "El Ejercito: su Estrutura
Estrategica y su Doctrina de Guerra", Fev 1994.
(10) Carl von Clausewitz, "On War".
(11) Gen Aleksandr Svechin, "Strategy".
Notas
do Editor do Defesanet
O presente artigo foi publicado como anexo ao ensaio de
autoria do Cel EB Álvaro de Souza Pinheiro, "Guerrilha
na Amazônia, uma experiência no passado, o
presente e o futuro", na revista Military Review
(publicação oficial da Escola de Comando
e Estado-Maior do Exército dos EUA), nas suas edições
em espanhol, de Set-Out 1995 e, em inglês, de Mar-Abr
1996.
O
Cel álvaro está na reserva com o posto de
General de Brigada do Exército Brasileiro.
Quando
da elaboração deste artigo, seu autor, Cel
Res William Mendel, desempenhava as funções
de analista de alto nível ("Senior Analyst")
no Escritório de Estudos Militares Estrangeiros
("Foreign Military Studies Office") , organização
militar subordinada ao Centro de Armas Combinadas do Exército
dos EUA ("US Army Combined Arms Center"), em
Fort Leavenworth/Kansas.
A
"Estratégia da Lassidão" é,
atualmente, identificada como "Estratégia
da Resistência".