Missão
de paz abre oportunidades para
empresas brasileiras no Haiti
Raquel Landim, de São
Paulo
(colaborou Ricardo Balthazar, de Washington)
Você investiria
em uma ilha desprovida de riquezas naturais, onde
apenas um quarto das rodovias são pavimentadas,
onde falta energia todos os dias, onde os portos
são antigos e cobram as taxas mais caras
do continente? Acrescente corrupção,
violência e instabilidade política.
Considere também
um mercado interno onde 75% da população
vive com menos de US$ 2 por dia. Esse é
o Haiti, a nação mais pobre do Hemisfério
Ocidental.
Em meio a esse
caos, empresas brasileiras enxergam oportunidades
e começam a aproveitar a posição
estratégica do Brasil como líder
da Missão da Organização
das Nações Unidas para a Estabilização
do Haiti (Minustah). Duas gigantes estão
prestes a se instalar no país: a Coteminas
quer utilizar o Haiti como plataforma de exportação
de confecção para os Estados Unidos
e a OAS acaba de vencer uma licitação
para pavimentar uma rodovia.
A OAS deve assinar
o contrato este mês, já o negócio
da Coteminas está pendente de mudanças
na legislação americana. Nesse caso,
o protagonismo do Brasil no Haiti pode ser decisivo.
Uma das prioridades da política externa
do governo Lula, a missão da ONU era um
trunfo para conquistar a boa vontade mundial para
a candidatura brasileira a uma vaga no Conselho
de Segurança. A estratégia não
deu certo, mas pode render frutos econômicos.
"O Brasil
é um reconhecido colaborador do processo
de resgatar o Haiti. O país tem o direito
de pleitear um tratamento preferencial",
disse ao Valor Josué Gomes da Silva, presidente
da Coteminas e filho do vice-presidente José
Alencar. O empresário já esteve
pessoalmente no Haiti e conversou com produtores
locais em busca de parceiros. A indústria
têxtil haitiana, que chegou a ter mais de
100 companhias na década de 80, hoje conta
com pouco menos de 20 empresas. Mesmo assim, ainda
representa 10% do Produto Interno Bruto (PIB)
e 68% das exportações.
Os benefícios
de uma fábrica da Coteminas para um país
pobre como o Haiti são óbvios. Cerca
de 80% da população está
desempregada. O governo brasileiro também
sai ganhando. "A saída das forças
de paz está relacionada à segurança
e ao desenvolvimento econômico", avaliou
o embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman.
Apesar da confusão
institucional, o Haiti tem vantagens importantes
para oferecer para uma empresa têxtil: proximidade
e acesso diferenciado ao maior mercado do mundo,
os EUA, e mão-de-obra barata. Uma costureira
na capital Porto Príncipe recebe US$ 0,50
por hora. É uma remuneração
inferior aos US$ 3,27 pagos no Brasil e muito
abaixo dos US$ 16,92 dos EUA, conforme a consultoria
Werner. O valor é inferior até aos
US$ 0,85 pagos no litoral da China e perde apenas
para os US$ 0,46 do Vietnã e os US$ 0,28
de Bangladesh.
O plano da Coteminas
é exportar o tecido do Brasil, confeccionar
a roupa no Haiti, e vender com tarifa zero para
os Estados Unidos, amparada pelo acordo de livre
comércio. A vantagem é significativa,
pois os EUA cobram em média 17% de tarifa
de importação para confecção.
Outras empresas brasileiras já planejaram
se instalar no Caribe, mas esbarraram nas rígidas
regras de origem dos produtos. O tratado EUA -
Caribe estabelece que fio, tecido e confecção
devem ser feitos nos dois parceiros ou nos países
que possuem acordos de livre comércio com
os americanos.
Gomes da Silva
explica que não é economicamente
viável produzir o tecido no Haiti, porque
os custos são altos. Segundo uma fonte
do setor têxtil, uma fábrica com
capacidade para 1 milhão de metros de tecido
por ano custa US$ 50 milhões. Para uma
confecção de 100 mil peças
de jeans, o investimento não passa de US$
4 milhões.
Para tornar viável o projeto no Haiti,
a Coteminas precisa convencer os deputados americanos
a alterar o Hope, acordo de ajuda humanitário,
que significa "esperança" na
sigla em inglês e equivale a um tratado
de livre comércio. A empresa contratou
o escritório de lobby Sandler, Travis &
Rosenberg, de Washington. Na equipe a seu serviço,
atuam pelo menos cinco especialistas com bom trânsito
no Congresso e no Executivo.
Criado em 2006
e alterado no início do ano, o "Haiti
Hemispheric Oportunity trough Partnership Encourajement"
é uma iniciativa do governo dos EUA para
apoiar o desenvolvimento e o crescimento do Haiti.
Trata-se de uma espécie de adendo ao acordo
EUA-Caribe, mas com normas mais relaxadas.
Segundo Nicole
Collinson, uma das especialistas contratada pela
Coteminas e ex-negociadora têxtil assistente
do USTR, a regra de origem do Hope é conhecida
como "três por um": para cada
metro quadrado de roupa feita com tecido estrangeiro,
a confecção do Haiti deve utilizar
três metros quadrados de tecido local, americano
ou de países que têm livre comércio
com os EUA. O Haiti pode exportar apenas 70 milhões
de metros quadrados de confecções
sem restrição. Um montante semelhante
favorece as roupas de tricô.
Gomes da Silva
defendeu que os EUA deveriam conceder ao Brasil,
apenas no caso do Haiti, o mesmo tratamento a
parceiros com acordos de livre comércio.
Também há saídas como cotas
para produtos que interessam à empresa.
Uma fonte graduada disse que a estratégia
pode ter sucesso, porque os americanos são
sensíveis à situação
no Haiti, país que manteve relações
quase coloniais com os Estados Unidos. "A
atitude do Brasil de liderar a missão de
paz é bem-vista em Washington", disse
a fonte.
Outro argumento
a favor da Coteminas é que, até
agora, o Hope é um fracasso. Conforme a
Comissão de Comércio Internacional
dos Estados Unidos (USITC), o impacto do tratado
em exportação e geração
de empregos é mínimo. Algumas empresas
haitianas expandiram operações,
mas quase não houve investimento estrangeiro
adicional. Por conta das regras de origem, apenas
3% das exportações têxteis
do Haiti conseguiram o benefício.