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Joel Silveira, o maior
repórter do Brasil, 88 |
Defesa@Net
- O jornalista Joel Silveira integrava o pequeno
grupo que acompanhou a história, com
os olhos brasileiros. Essas pessoas não
estão sendo substituídas por
novos elementos e ficamos presos a coberturas
internacionais pelos olhos de outros. Nosso
adeus a Joel, que cumpriu fielmente a ordem
de seu chefe Assis Chateaubriand: "Você
vai cobrir a guerra e não tem permissão
de morrer." |
Joel Silveira, aos
26 anos, trabalhava para os "Diários
Associados", e era um dos muitos repórteres
que, naquele tempo, gostaria de ser escalado para
cobrir a presença da Força
Expedicionária Brasileira (FEB)
na Segunda Guerra, entre 1944-45.
Um dos que disputavam o posto de correspondente
de guerra era Carlos Lacerda, que também
trabalhava nos "Diários". Mas Assis
Chateaubriand acabou escolhendo o jovem repórter
que, com a viagem de 11 meses acompanhando os soldados
por lugares inóspitos na Itália, viveria
o ponto alto de sua brilhante carreira. Silveira,
muitas vezes apresentado como "o maior repórter
brasileiro", contava ter voltado da guerra
"com 80 anos":
- O que a guerra
nos tira, quando não tira a vida, não
devolve nunca mais - iria afirmar o jornalista inúmeras
vezes depois.
"Seu Silveira",
disse-lhe Chateaubriand quando o convocou, "vá
para a guerra mas não morra. Repórter
não é para morrer, é para mandar
notícias". Na Itália, Silveira
teve como colegas Rubem Braga,
enviado do "Diário Carioca", Raul
Brandão, do "Correio da Manhã",
Egydio Squeff, do GLOBO, e o fotógrafo
Thassilo Mitke. Testemunhou o fuzilamento
do sargento Wolf por uma patrulha alemã e
acompanhou, atocaiado na casa de um camponês
italiano, a histórica tomada do Monte Castelo.
Os relatos da guerra,
muitos dos quais censurados na época, foram
reunidos no livro "Histórias
de pracinha", de 1945. Há dois
anos, textos daquele livro, esgotado há três
décadas, foram reeditados em "O
inverno da guerra", da editora Objetiva.
O jornalista, que
nasceu em setembro de 1918 no Sergipe, chegou ao
Rio em 1937. Seu primeiro emprego foi no jornal
literário "Dom Casmurro", de Álvaro
Moreyra. Nos anos 40, o estilo de Silveira começou
a chamar atenção. Do seu texto, Manuel
Bandeira observou que tinha "uma maneira muito
pessoal, pachorrenta, meio songamonga, voluntariamente
sem brilho literário. É o anti-João
do Rio - e, apesar disso, ou antes por isso mesmo,
maciçamente perfurante como uma punhalada
que só dói quando a ferida esfria".
Antes dos "Diários
Associados", trabalhou na revista "Diretrizes",
de Samuel Wainer, onde assinou textos que marcaram
época. Num deles, em 1943, travestiu-se de
sergipano rústico em dândi e, pelas
mãos de Di Cavalcanti e a mulher do pintor,
Noêmia, penetrou nas festas dos milionários
paulistanos, que, durante a guerra, apresentavam
uma prosperidade nunca vista no país. Com
o título "Grã-finos em São
Paulo", o texto publicado na revista causou
ira na sociedade paulistana, que organizou-se numa
expedição ao hotel onde Silveira estava
hospedado para linchá-lo. Ele se salvou com
a ajuda de um grupo de estudantes, que, liderados
por Jânio Quadros, conseguiram escondê-lo.
Devido à reportagem, em que ironizava a burguesia,
Silveira ganhou o apelido "víbora",
dado por Chateaubriand.
Jornalista publicou
cerca de 40 livros
Alguns anos depois,
o jornalista voltaria a São Paulo, a pedido
de Carlos Lacerda, então diretor da revista
"Sete Dias", para fazer reportagem semelhante,
sobre a milionária festa de casamento da
filha do Conde Matarazzo. Publicada com o título
"A milésima segunda noite da Avenida
Paulista", o texto teve grande repercussão
e, há quatro anos, foi relançado pela
Companhia das Letras num livro de título
homônimo, uma coletânea de textos dos
anos 40 do repórter.
Joel Silveira foi
responsável por assinar a derradeira entrevista
de "Diretrizes", em 1944. Dessa vez, não
era um grã-fino, mas uma conversa com Monteiro
Lobato que causaria polêmica. O escritor,
então com 62 anos, não escondeu seu
entusiasmo com a revolução soviética
e, com o título "Um governo deve sair
do povo como a fumaça de uma fogueira",
a reportagem desagradou às autoridades. Lobato
passou uma semana preso e Silveira refugiou-se num
sítio.
Ao longo da vida,
publicou cerca de 40 livros, muitos com memórias
e coletâneas de suas reportagens. Um dos mais
recentes é "A feijoada que derrubou
o governo", título da coleção
Jornalismo Literário, da Companhia das Letras.
No livro, reúne histórias políticas,
de seus encontros com autoridades como JK, João
Goulart, Jânio Quadros, Getúlio Vargas
- que o recebeu pensando que Silveira queria lhe
pedir um emprego, em vez de uma simples entrevista.
Com o jornalista
e amigo Geneton Moraes Neto, escreveu
dois livros: "Nitroglicerina pura"
e "Hitler/Stalin - O pacto maldito e suas repercussões
no Brasil", sobre intelectuais brasileiros
de esquerda que colaboraram numa publicação
nazista. Silveira também era autor de alguns
livros de ficção, como "Dias
de luto". Trabalhou, ainda, em "Última
hora", "Estado de S. Paulo", "Diário
de Notícias", "Correio da Manhã"
e muitos anos na revista "Manchete". Sempre
foi repórter - só teve uma experiência
como editor, que não lhe agradou.
Em 1998, recebeu
da Academia Brasileira de Letras (ABL) o prêmio
Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Entre
outros prêmios, recebeu o Jabuti e o Líbero
Badaró. Em maio, foi homenageado em congresso
internacional organizado pela Associação
Brasileira de Jornalismo Investigativo. O jornalista,
que tinha 88 anos, morreu na madrugada de ontem,
enquanto dormia no seu apartamento, em Copacabana,
de "causas naturais", segunda a família.
Há muitos anos, o maior repórter brasileiro
não saía mais de casa. Será
cremado hoje, às 15h, no Cemitério
do Caju. Era casado com Iracema, com quem teve dois
filhos.
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