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No próximo
mês de Setembro, um contingente de tropas
da Brigada de Intervenção (1) iniciam
uma missão de manutenção de
paz no Kosovo. Defesa Net acompanhou os treinos
da força naquele que foi o seu último
exercício.
Os desafios
dos Balcãs
O contingente,
designado por Agrupamento Mike, dará continuidade
à missão portuguesa no teatro de operações
do Kosovo, constituindo uma reserva táctica
(KTM, KFOR Tactical Reserve Manoueuvre Batalion)
ao dispor do comando da força da NATO aí
estacionada (COMKFOR). As unidades de reserva integram
uma força multinacional de 16 mil militares
com a missão de assegurar a estabilidade
e ordem pública e a segurança e liberdade
de movimentos das populações.
A KTM constitui, pois, uma força com elevado
grau de prontidão, apta a ser empregue em
qualquer ponto do território do Kosovo, explica
o Capitão Carlos Roque, oficial de relações
públicas do agrupamento. A título
de exemplo, uma parte da força (comando e
uma companhia) deve ter um tempo de prontidão
de 12 horas e todo o agrupamento de 24 horas. Com
toda a sua capacidade operacional e de sustentação
mobilizadas, a força portuguesa deve ser
capaz de operar de forma auto-sustentatada por um
período de até 72 horas.
As missões no território desdobram-se,
entre outras, em operações de controlo
de tumultos (CRC, Crowd Riot Control), operações
de combate ao contrabando, reconhecimento e patrulhamento
de itinerários ou operações
de apoio às populações (com
um módulo sanitário e outro de engenharia).
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Ainda
operacionais os blindados Chaimite serão
substituídos pelos Pandur II no Exército
de Portugal
(Nota DEFESA@NET) |
Conforme explica
o comandante do Agrupamento Mike, Tenente-Coronel
Jocelino Rodrigues, a situação no
terreno não regista a instabilidade que alguns
analistas esperavam após a declaração
unilateral de independência do Kosovo, em
Março. Contudo, alerta, trata-se de uma “calma
tensa”, o que obriga a um treino e prontidão
permanentes.
A presença
portuguesa no Kosovo
A presença
nacional na missão da KFOR divide-se em dois
momentos. Entre 1999 e 2001, acompanhando o envio
dos primeiros contingentes pelos membros da Aliança
Atlântica. Na altura, a interrupção
da missão foi, em parte, justificada pelo
empenho de forças nacionais na missão
de paz em Timor-Leste – a qual, em dado momento,
chegou a totalizar um contingente de um milhar de
militares dos três ramos das Forças
Armadas. Em 2005, foi retomada a missão no
Kosovo, passando as forças do Exército
a assegurar uma reserva táctica dependente
do COMKFOR.
Em Março de 2008, contrariando os calendários
e iniciativas diplomáticas em curso, as autoridades
do Kosovo declaram de forma unilateral a independência
do território relativamente à Sérvia.
Neste contexto de tensão latente, o Agrupamento
Mike da Brigada de Intervenção rende
a unidade da Brigada de Reacção Rápida
que, até Setembro, cumpre missão no
Kosovo.
Agrupamento
Mike
O Agrupamento Mike
corresponde a uma força de cavalaria do escalão
reforçada com uma companhia de infantaria.
Em termos da sua orgânica, o agrupamento é
constituído por um núcleo de comando,
estado-maior, por duas companhias de manobra (Bravo
e Charlie Coy) e uma companhia de apoio (Alfa Coy),
num total de 290 efectivos.
O núcleo central de forças do contingente
português provém do Grupo de Auto-Metralhadoras
(GAM), uma unidade da Brigada de Intervenção.
A criação do GAM, em 2006, integra
a transformação da Brigada de Intervenção
numa força média vocacionada para
conflitos de baixa e média intensidade. Basicamente,
a sua organização replica a dos grupos
de carros de combate das forças pesadas,
embora os três esquadrões de auto-metralhadoras
previstos devam vir a ser, entre 2010 e 2012, equipados
com viaturas blindadas do tipo Mobile Gun System
(MGS) armadas com uma 105mm. Presentemente, o GAM
conta com um esquadrão levantado e equipado
com viaturas Cadillac Gage V-150 com peça
de 90mm. Este esquadrão corresponde, no Agrupamento
Mike, a uma companhia, denominada Charlie Coy.
O agrupamento inclui, igualmente, militares de outras
unidades, salienta o Capitão Cabral, oficial
na força. A outra companhia de manobra, denominada
Bravo Coy, inclui uma companhia de infantaria do
1º Batalhão de Infantaria da Brigada
de Intervenção e um pelotão
do Regimento de Guarnição Nº
1 (RG 1) da Zona Militar dos Açores. Quanto
à companhia de apoio, esta conta com militares
de várias subunidades da Brigada de Intervenção.
Segundo o Capitão Cabral, o esquadrão
de apoio em combate possui um pelotão de
morteiros de 81mm e um pelotão anticarro
com mísseis Milan. Contudo, se a força
está certificada para a operação
de tais sistemas de armas, os mesmos não
são empregues no teatro de operações
do Kosovo. Constituindo, portanto, mais um seguro
caso a situação no terreno evolua
negativamente, aponta o Tenente-Coronel Jocelino
Rodrigues. Adicionalmente, o agrupamento possui
um pequeno grupo de militares das operações
especiais de Lamego.
Fases de
aprontamento
O aprontamento de
uma força militar para uma missão
de manutenção de paz no estrangeiro
é complexo e demorado. Como nota o Tenente-Coronel
Jocelino Rodrigues, o Agrupamento Mike iniciou o
seu aprontamento em Março de 2008 com vista
à sua projecção em Setembro.
Mais detalhadamente, este dividiu-se em cinco fases
com objectivos distintos:
i) nivelamento
das forças com o treino de técnicas
individuais de combate e conduzida, maioritariamente,
nas unidades de origem (Março);
ii) treino de operações convencionais,
defensivas e ofensivas, incluindo o principal
exercício anual da Brigada de Intervenção,
o Dragão 08 (1, 2) nas suas fases de posto
de comando e exercício de campo (Abril-Maio);
iii) instrução orientada para a
missão visando habilitar os militares do
sgrupamento com o conhecimento sobre a região,
bem como executar operações de apoio
à paz, designadamente em área edificadas
(Maio-Julho);
iv) avaliação das capacidades operacionais
do agrupamento, incluindo o exercício final
de aprontamento Pristina 082 (Julho);
v) preparação da projecção
e projecção para o teatro de operações,
com o envio de material individual e colectivo
(Julho-Setembro).
Os treinos
finais em Cabeceiras de Bastos
No final do mês
de Julho decorreu o exercício Pristina 082
em Cabeceiras de Bastos, no norte de Portugal. O
objectivo do exercício foi testar a capacidade
operacional de todos os escalões da força,
aponta o Tenente-Coronel Jocelino Rodrigues. Entre
as várias acções treinadas
incluem-se, por exemplo, o controlo e protecção
de itinerários; escolta a colunas militares
e humanitárias; patrulhamentos de área;
protecção de aquartelamentos; praticar
as regras de empenhamento (ROE) aprovadas pela KFOR;
garantir a auto-suficiência em termos logísticos,
de comunicações e segurança,
até 72 horas; operações de
controlo de tumultos até escalão de
companhia; a prática de língua inglesa.
Ao mesmo tempo, o Pristina 082 permitiu desenvolver
a capacidade de planear e controlar operações
de escalão batalhão.
Na fase terminal do exercício, foi feita
a certificação da força para
a missão, com a sua avaliação
por uma equipa independente do Exército português.
Na realidade, ao longo dos vários incidentes
a que os militares tiveram que responder durante
o Pristina 082 uma equipa de árbitros - composta
por militares com experiência em missões
de paz - avaliou o desempenho dos militares do agrupamento,
produzindo relatórios diários e dando
indicações pontuais aos próprios
militares. Como explica o adjunto do comandante
do Agrupamento Mike, Major Pimenta, trata-se uma
forma de transmitir a experiência adquirida
por estes militares no terreno, corrigindo erros
e evitando a sua ocorrência numa situação
real.
Por uma semana, Cabeceiras de Bastos recebeu os
290 militares do agrupamento que aí replicaram
operações militares, de resposta a
tumultos, de apoio a populações com
o módulo de engenharia abriu caminhos nas
proximidades da localidade nortenha. As viaturas
militares e blindados Chaimite montaram check-points
nas estreitas estradas na periferia da vila. A escola
secundária, vazia no período de férias
escolares, recebeu o agrupamento e serviu como aquartelamento
do mesmo e para o estado-maior da Brigada de Intervenção
que simulou o COMKFOR. O módulo de saúde
deu consultas às populações,
reforçando um contacto entre os militares
do Exército e as forças vivas da região
que o regimento de Braga vem fomentando desde há
vários anos, explica o Tenente-Coronel Jocelino
Rodrigues.
Numa das acções a que Defesa Net assistiu,
foi treinada a realização de um check-point
numa estrada de acesso à vila. Os militares
portugueses, apoiados por uma viatura blindada Chaimite,
vigiam a passagem das viaturas, deixando passar
as viaturas civis e parando viaturas suspeitas –
neste caso, um jipe militar UMM de fabrico português.
Poucos minutos depois, surge, ao fundo da estrada
esguia, a silhueta de um jipe militar. O oficial
que comanda a força dá a indicação
para que a viatura seja inspeccionada e um dos militares
faz sinal para que esta abrande e encoste. Iniciam-se,
então, um conjunto de procedimentos treinados
em que, sob a vigilância dissuasora dos militares
armados, dois elementos fazem a vistoria à
viatura e aos seus ocupantes. A revista revela a
posse de uma arma de calibre ligeiro ilegal. Os
ocupantes são algemados e presos. Todo o
processo é acompanhado atentamente pelos
oficiais portugueses.
O controlo de tumultos constitui uma das mais perigosas
missões que podem ser atribuídas à
KTM e, segundo o Capitão Carlos Roque, a
actua força destacada no Kosovo foi já
chamada para acções desta natureza
em vários momentos. Na porta de armas do
aquartelamento em Cabeceiras de Bastos, Defesa Net
observou uma destas acções. Em consequência
de protestos pela melhoria das condições
de vida na região, populares – na verdade,
militares do regimento de Viseu que, por alguns
dias, tiveram o papel de forças de oposição
– concentram-se na porta de armas do aquartelamento.
Os militares de guarda rapidamente formam uma fileira
cerrada, impedindo o acesso ao seu interior. Os
manifestantes agitam paus, provocam os militares
e ensaiam agressões mas a fileira permanece
coesa. Os militares resistem a uma reacção
desproporcionada. A multidão não se
afasta o que leva a que um grupo de militares especialmente
equipados receba a ordem para avançar. Em
passo decidido e numa fileira coesa parecem uma
parede negra, um muro que tapa a entrada do aquartalamento.
O comandante do pelotão avalia a situação
com evidente concentração, dá
ordens rápidas a cada militar. Usando força
não letal dissuadem os manifestantes, os
quais, após, algumas tentativas de confronto,
acabam por dispersar. O grupo de militares permanece,
contudo, na porta de armas. Como num teatro de operações
real, não sabem se os manifestantes podem
regressar. Entretanto, uma coluna de viaturas blindadas
Chaimite regressa de mais uma patrulha, da qual
não se registam baixas. Os oficiais, concluindo
que a situação evolui favoravelmente,
dão, por fim, a ordem para as tropas recolherem.
Mesmo sendo um cenário simulado, a ordem
descomprime os militares que, regressando ainda
equipados, trocam, por fim, palavras descontraídas
entre si. O treino por que passaram mostra os primeiros
resultados.
Notas finais
A participação
portuguesa na missão da NATO no teatro de
operações do Kosovo constitui uma
oportunidade para melhorar procedimentos e doutrinas
e, ao mesmo tempo, estreitar o contacto e colaboração
com forças estrangeiras. Este último
ponto vem sendo, aliás, cada vez mais importante
pois, como nota o Tenente-Coronel João Godinho,
do Estado-Maior da Brigada de Intervenção,
as operações militares são
maioritariamente combinadas e conjuntas.
Por outro lado,
o facto do Agrupamento Mike constituir uma reserva
táctica para a força multinacional
traz consigo desafios específicos, como a
necessidade de preparação e prontidão
das forças para dar resposta, a qualquer
momento, a qualquer missão que lhe seja atribuída.
Os oficiais reconhecem as dificuldades, mas mostram-se
confiantes que o Agrupamento Mike dará seguimento
a uma actuação reconhecidamente positiva
das tropas portuguesas nos Balcãs.
Agradecimentos
Defesa Net
agradece aos militares do Agrupamento Mike o apoio
dado ao longo da reportagem no exercício
Pristina 082 e, em especial, ao seu comandante,
Tenente-Coronel Jocelino Rodrigues.
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