18 Agosto 2008
12:00 Horas
Notícias
Arquivo Notícias
Boletíns
Editoriais
Revista Virtual
SOF História
Artigos
Documentos
Links
Fotos
Vídeos
Eventos
Busca Arquivo
  Defesa@Net
A Empresa
Equipe
 

OTAN - NATO

DEFESA@NET 16 Agosto 2008

DEFESA@NET

NATO: Portugal prepara
missão para o Kosovo


Por Pedro Manuel Monteiro
(http://pedromonteiro-photography.blogspot.com)

No próximo mês de Setembro, um contingente de tropas da Brigada de Intervenção (1) iniciam uma missão de manutenção de paz no Kosovo. Defesa Net acompanhou os treinos da força naquele que foi o seu último exercício.

Os desafios dos Balcãs

O contingente, designado por Agrupamento Mike, dará continuidade à missão portuguesa no teatro de operações do Kosovo, constituindo uma reserva táctica (KTM, KFOR Tactical Reserve Manoueuvre Batalion) ao dispor do comando da força da NATO aí estacionada (COMKFOR). As unidades de reserva integram uma força multinacional de 16 mil militares com a missão de assegurar a estabilidade e ordem pública e a segurança e liberdade de movimentos das populações.

A KTM constitui, pois, uma força com elevado grau de prontidão, apta a ser empregue em qualquer ponto do território do Kosovo, explica o Capitão Carlos Roque, oficial de relações públicas do agrupamento. A título de exemplo, uma parte da força (comando e uma companhia) deve ter um tempo de prontidão de 12 horas e todo o agrupamento de 24 horas. Com toda a sua capacidade operacional e de sustentação mobilizadas, a força portuguesa deve ser capaz de operar de forma auto-sustentatada por um período de até 72 horas.

As missões no território desdobram-se, entre outras, em operações de controlo de tumultos (CRC, Crowd Riot Control), operações de combate ao contrabando, reconhecimento e patrulhamento de itinerários ou operações de apoio às populações (com um módulo sanitário e outro de engenharia).

Ainda operacionais os blindados Chaimite serão substituídos pelos Pandur II no Exército de Portugal
(Nota DEFESA@NET)

Conforme explica o comandante do Agrupamento Mike, Tenente-Coronel Jocelino Rodrigues, a situação no terreno não regista a instabilidade que alguns analistas esperavam após a declaração unilateral de independência do Kosovo, em Março. Contudo, alerta, trata-se de uma “calma tensa”, o que obriga a um treino e prontidão permanentes.

A presença portuguesa no Kosovo

A presença nacional na missão da KFOR divide-se em dois momentos. Entre 1999 e 2001, acompanhando o envio dos primeiros contingentes pelos membros da Aliança Atlântica. Na altura, a interrupção da missão foi, em parte, justificada pelo empenho de forças nacionais na missão de paz em Timor-Leste – a qual, em dado momento, chegou a totalizar um contingente de um milhar de militares dos três ramos das Forças Armadas. Em 2005, foi retomada a missão no Kosovo, passando as forças do Exército a assegurar uma reserva táctica dependente do COMKFOR.

Em Março de 2008, contrariando os calendários e iniciativas diplomáticas em curso, as autoridades do Kosovo declaram de forma unilateral a independência do território relativamente à Sérvia. Neste contexto de tensão latente, o Agrupamento Mike da Brigada de Intervenção rende a unidade da Brigada de Reacção Rápida que, até Setembro, cumpre missão no Kosovo.

Agrupamento Mike

O Agrupamento Mike corresponde a uma força de cavalaria do escalão reforçada com uma companhia de infantaria. Em termos da sua orgânica, o agrupamento é constituído por um núcleo de comando, estado-maior, por duas companhias de manobra (Bravo e Charlie Coy) e uma companhia de apoio (Alfa Coy), num total de 290 efectivos.

O núcleo central de forças do contingente português provém do Grupo de Auto-Metralhadoras (GAM), uma unidade da Brigada de Intervenção. A criação do GAM, em 2006, integra a transformação da Brigada de Intervenção numa força média vocacionada para conflitos de baixa e média intensidade. Basicamente, a sua organização replica a dos grupos de carros de combate das forças pesadas, embora os três esquadrões de auto-metralhadoras previstos devam vir a ser, entre 2010 e 2012, equipados com viaturas blindadas do tipo Mobile Gun System (MGS) armadas com uma 105mm. Presentemente, o GAM conta com um esquadrão levantado e equipado com viaturas Cadillac Gage V-150 com peça de 90mm. Este esquadrão corresponde, no Agrupamento Mike, a uma companhia, denominada Charlie Coy.

O agrupamento inclui, igualmente, militares de outras unidades, salienta o Capitão Cabral, oficial na força. A outra companhia de manobra, denominada Bravo Coy, inclui uma companhia de infantaria do 1º Batalhão de Infantaria da Brigada de Intervenção e um pelotão do Regimento de Guarnição Nº 1 (RG 1) da Zona Militar dos Açores. Quanto à companhia de apoio, esta conta com militares de várias subunidades da Brigada de Intervenção. Segundo o Capitão Cabral, o esquadrão de apoio em combate possui um pelotão de morteiros de 81mm e um pelotão anticarro com mísseis Milan. Contudo, se a força está certificada para a operação de tais sistemas de armas, os mesmos não são empregues no teatro de operações do Kosovo. Constituindo, portanto, mais um seguro caso a situação no terreno evolua negativamente, aponta o Tenente-Coronel Jocelino Rodrigues. Adicionalmente, o agrupamento possui um pequeno grupo de militares das operações especiais de Lamego.

Fases de aprontamento

O aprontamento de uma força militar para uma missão de manutenção de paz no estrangeiro é complexo e demorado. Como nota o Tenente-Coronel Jocelino Rodrigues, o Agrupamento Mike iniciou o seu aprontamento em Março de 2008 com vista à sua projecção em Setembro. Mais detalhadamente, este dividiu-se em cinco fases com objectivos distintos:

i) nivelamento das forças com o treino de técnicas individuais de combate e conduzida, maioritariamente, nas unidades de origem (Março);
ii) treino de operações convencionais, defensivas e ofensivas, incluindo o principal exercício anual da Brigada de Intervenção, o Dragão 08 (1, 2) nas suas fases de posto de comando e exercício de campo (Abril-Maio);
iii) instrução orientada para a missão visando habilitar os militares do sgrupamento com o conhecimento sobre a região, bem como executar operações de apoio à paz, designadamente em área edificadas (Maio-Julho);
iv) avaliação das capacidades operacionais do agrupamento, incluindo o exercício final de aprontamento Pristina 082 (Julho);
v) preparação da projecção e projecção para o teatro de operações, com o envio de material individual e colectivo (Julho-Setembro).

Os treinos finais em Cabeceiras de Bastos

No final do mês de Julho decorreu o exercício Pristina 082 em Cabeceiras de Bastos, no norte de Portugal. O objectivo do exercício foi testar a capacidade operacional de todos os escalões da força, aponta o Tenente-Coronel Jocelino Rodrigues. Entre as várias acções treinadas incluem-se, por exemplo, o controlo e protecção de itinerários; escolta a colunas militares e humanitárias; patrulhamentos de área; protecção de aquartelamentos; praticar as regras de empenhamento (ROE) aprovadas pela KFOR; garantir a auto-suficiência em termos logísticos, de comunicações e segurança, até 72 horas; operações de controlo de tumultos até escalão de companhia; a prática de língua inglesa. Ao mesmo tempo, o Pristina 082 permitiu desenvolver a capacidade de planear e controlar operações de escalão batalhão.

Na fase terminal do exercício, foi feita a certificação da força para a missão, com a sua avaliação por uma equipa independente do Exército português. Na realidade, ao longo dos vários incidentes a que os militares tiveram que responder durante o Pristina 082 uma equipa de árbitros - composta por militares com experiência em missões de paz - avaliou o desempenho dos militares do agrupamento, produzindo relatórios diários e dando indicações pontuais aos próprios militares. Como explica o adjunto do comandante do Agrupamento Mike, Major Pimenta, trata-se uma forma de transmitir a experiência adquirida por estes militares no terreno, corrigindo erros e evitando a sua ocorrência numa situação real.

Por uma semana, Cabeceiras de Bastos recebeu os 290 militares do agrupamento que aí replicaram operações militares, de resposta a tumultos, de apoio a populações com o módulo de engenharia abriu caminhos nas proximidades da localidade nortenha. As viaturas militares e blindados Chaimite montaram check-points nas estreitas estradas na periferia da vila. A escola secundária, vazia no período de férias escolares, recebeu o agrupamento e serviu como aquartelamento do mesmo e para o estado-maior da Brigada de Intervenção que simulou o COMKFOR. O módulo de saúde deu consultas às populações, reforçando um contacto entre os militares do Exército e as forças vivas da região que o regimento de Braga vem fomentando desde há vários anos, explica o Tenente-Coronel Jocelino Rodrigues.

Numa das acções a que Defesa Net assistiu, foi treinada a realização de um check-point numa estrada de acesso à vila. Os militares portugueses, apoiados por uma viatura blindada Chaimite, vigiam a passagem das viaturas, deixando passar as viaturas civis e parando viaturas suspeitas – neste caso, um jipe militar UMM de fabrico português. Poucos minutos depois, surge, ao fundo da estrada esguia, a silhueta de um jipe militar. O oficial que comanda a força dá a indicação para que a viatura seja inspeccionada e um dos militares faz sinal para que esta abrande e encoste. Iniciam-se, então, um conjunto de procedimentos treinados em que, sob a vigilância dissuasora dos militares armados, dois elementos fazem a vistoria à viatura e aos seus ocupantes. A revista revela a posse de uma arma de calibre ligeiro ilegal. Os ocupantes são algemados e presos. Todo o processo é acompanhado atentamente pelos oficiais portugueses.

O controlo de tumultos constitui uma das mais perigosas missões que podem ser atribuídas à KTM e, segundo o Capitão Carlos Roque, a actua força destacada no Kosovo foi já chamada para acções desta natureza em vários momentos. Na porta de armas do aquartelamento em Cabeceiras de Bastos, Defesa Net observou uma destas acções. Em consequência de protestos pela melhoria das condições de vida na região, populares – na verdade, militares do regimento de Viseu que, por alguns dias, tiveram o papel de forças de oposição – concentram-se na porta de armas do aquartelamento. Os militares de guarda rapidamente formam uma fileira cerrada, impedindo o acesso ao seu interior. Os manifestantes agitam paus, provocam os militares e ensaiam agressões mas a fileira permanece coesa. Os militares resistem a uma reacção desproporcionada. A multidão não se afasta o que leva a que um grupo de militares especialmente equipados receba a ordem para avançar. Em passo decidido e numa fileira coesa parecem uma parede negra, um muro que tapa a entrada do aquartalamento. O comandante do pelotão avalia a situação com evidente concentração, dá ordens rápidas a cada militar. Usando força não letal dissuadem os manifestantes, os quais, após, algumas tentativas de confronto, acabam por dispersar. O grupo de militares permanece, contudo, na porta de armas. Como num teatro de operações real, não sabem se os manifestantes podem regressar. Entretanto, uma coluna de viaturas blindadas Chaimite regressa de mais uma patrulha, da qual não se registam baixas. Os oficiais, concluindo que a situação evolui favoravelmente, dão, por fim, a ordem para as tropas recolherem. Mesmo sendo um cenário simulado, a ordem descomprime os militares que, regressando ainda equipados, trocam, por fim, palavras descontraídas entre si. O treino por que passaram mostra os primeiros resultados.

Notas finais

A participação portuguesa na missão da NATO no teatro de operações do Kosovo constitui uma oportunidade para melhorar procedimentos e doutrinas e, ao mesmo tempo, estreitar o contacto e colaboração com forças estrangeiras. Este último ponto vem sendo, aliás, cada vez mais importante pois, como nota o Tenente-Coronel João Godinho, do Estado-Maior da Brigada de Intervenção, as operações militares são maioritariamente combinadas e conjuntas.

Por outro lado, o facto do Agrupamento Mike constituir uma reserva táctica para a força multinacional traz consigo desafios específicos, como a necessidade de preparação e prontidão das forças para dar resposta, a qualquer momento, a qualquer missão que lhe seja atribuída. Os oficiais reconhecem as dificuldades, mas mostram-se confiantes que o Agrupamento Mike dará seguimento a uma actuação reconhecidamente positiva das tropas portuguesas nos Balcãs.

Agradecimentos

Defesa Net agradece aos militares do Agrupamento Mike o apoio dado ao longo da reportagem no exercício Pristina 082 e, em especial, ao seu comandante, Tenente-Coronel Jocelino Rodrigues.

DEFESA@NET
(1)Portugal: Unidade do Exército testa capacidades de comando em exercício - 5 Maio 2008
http://www.defesanet.com.br/nato/pt_dragao.htm

(2) NATO: Forças militares de Portugal e Espanha treinam resposta a crise, http://www.defesanet.com.br/nato/pt_dragao_1.htm

   
   
 

 

 

 

 

  Fotografias
Direitos Reservados
Pedro Monteiro
xx  
   
 
   
   
 
   
   
 
   
   
 
   
   
   
   
© 2006 Defesa@Net™- Direitos Reservados