Uma trégua havia sido acertada entre o presidente eleito
do Paraguai, Fernando Lugo, e integrantes do Movimento
Campesino Paraguayo. Até sua posse, em
15 de agosto, não seriam realizadas invasões
de terras e nem protestos com a interdição
de rodovias. As manifestações que
estavam previstas para começar junto com
o mandato de Lugo estão sendo antecipadas
e vão acontecer a partir da próxima
semana. O objetivo das ações é
lembrar o novo mandatário que a reforma
agrária é uma de suas principais
promessas de campanha e deve ser prioritária
em sua agenda política.
Segundo informou a agência
de notícias ANSA, o presidente da Coordenadoria
de Produtores Agrícolas de San Pedro Norte,
Elvio Benitez, disse que o alvo das invasões
serão as propriedades de argentinos e brasileiros.
Ele havia se reunido com o presidente eleito do
Paraguai a quem convidou para assistir o ato de
reivindicação das terras, que vai
ocorrer dia 5 de agosto. Lugo foi Bispo da diocese
de San Pedro durante vários anos e conta
com milhares de simpatizantes na região.
Os estrangeiros proprietários
de terras se preparam para confrontos com integrantes
de movimentos sociais em todo o país. Armados
com equipamento militar adquirido em Ciudad del
Este, e alguns deles treinados pela Polícia
Nacional e pelo Exército Paraguayo, os
agricultores defenderão suas propriedades
“até a última bala se for
necessário”. Pais, filhos e milicianos
paraguaios e brasileiros prometem trazer a guerra
para o campo se suas plantações
forem destruídas e as propriedades invadidas.
O movimento campesino paraguaio
nasceu em 1980, como forma de resistência
à ditadura militar que governava o país.
Está fundamentado na “luta pelos
interesses imediatos e históricos dos trabalhadores
rurais e urbanos, homens e mulheres de todas as
idades”. A luta pelos interesses históricos,
está muito bem caracterizada pelo combate
à “influência do Brasil na
política e na agricultura paraguaias”.
Mas a prática do MCP contrasta
com seu discurso. Algumas das terras assentadas
foram vendidas aos estrangeiros para que os campesinos
retornassem à luta. Em outras áreas,
o plantio da maconha se tornou a principal atividade
econômica dos novos assentados. O lucro
obtido com a venda da droga – principalmente
ao Brasil – tem patrocinado várias
de suas ações e deslocamentos pelo
território nacional.
Em Santa Fé del Paraná
está localizado o único assentamento
campesino no distrito. Intitulado de Katupyry
Santiago Martinez, o assentamento reúne
numa área de 63 hectares de terra, 63 famílias.
“De tratamento médico à educação,
tudo o que eles têm vem de nossa prefeitura
e dos brasileiros”, disse o prefeito da
cidade, Joaquim Maciel. E só foi através
do contato dele que a equipe de Defesanet conseguiu
entrar no local e conhecer a realidade dos assentados.
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Syndulfo
Martinez |
Armazém
do assentamento campesino
em Santa Fé del Paraná |
Desconfiados, eles receberam a
reportagem com dois “guardas” armados
com foices. Vivendo numa cooperativa, e coordenados
por um chefe de produção e um “condutor
político”, os assentados vivem na
miséria absoluta. Como a maior parte dos
campesinos, eles vieram das cidades e não
da zona rural, o que é demonstrado na lavoura
quase inexistente, embora a terra seja altamente
produtiva. A reportagem não teve liberdade
para conhecer o local, mas conseguiu uma entrevista
exclusiva com o líder do movimento na região
do Alto Paraná, próxima à
fronteira com o Brasil.
Syndulfo Martinez –
Nós defendemos um modelo de produção
popular e somos integrantes de uma organização
política de esquerda. Estamos fazendo uma
campanha nacional com o tema Soberania Nacional,
onde abordamos a questão da soja, uma monocultura
empresarial majoritariamente brasileira que utiliza
grãos transgênicos e é a principal
responsável pelos quase três milhões
de paraguaios pobres. No momento estamos fazendo
uma revolução política, iniciando
a discussão de temas culturais, econômicos
e territoriais. Esses assuntos, da forma tratada
nos governos anteriores, feriam a soberania nacional
do Paraguai. Agora, estamos convidando todas as
classes sociais, dos comerciantes aos estudantes,
a resistir a este modelo imperialista brasileiro,
promovendo invasões de terras, revendo
nossas discussões sobre sua posse aos paraguaios
assim como a rediscussão territorial e
do Tratado de Itaipu.
Defesanet - Quais são
os objetivos do MCP na região da fronteira
com o Brasil?
Syndulfo Martinez – Nesta região
estamos denunciando a questão da Tríplice
Fronteira. O governo dos Estados Unidos afirma
que esta é uma área com atividade
terrorista, e onde quer instalar uma base da CIA.
Mas nossa principal reivindicação
e que nos afeta mais nesta região é
a questão da rediscussão do Tratado
de Itaipu. Esta usina é binacional e cada
país tem a mesma parcela dela. Mas não
é isso que está acontecendo. O governo
imperialista brasileiro está explorando
o pobre povo paraguaio e nós vamos reivindicar
da Usina o que nos é realmente de direito.
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Acampamento
do MCP dentro
da área da Itaipu Binacional
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Defesanet – As ações
realizadas aqui são coordenadas com o MST
do Brasil?
Syndulfo Martinez – Sim. Todas
as ações de invasão de terras
e interdição de rodovias realizadas
por nós são coordenadas e tem a
cooperação do Movimento dos Trabalhadores
Sem-Terra do Brasil. Essa união deve-se
ao fato de que toda nossa luta é contra
as multinacionais brasileiras, uma luta comum
entre os campesinos dos dois países. Este
é o único assentamento na região
do Alto Paraná que só possui paraguaios.
Nos demais há forte presença de
campesinos brasileiros.
Defesanet – O senhor
acredita num conflito com os brasileiros pela
posse da terra?
Syndulfo Martinez – Nós
estamos em contato com o MST (Brasil) para empreender
ações nesta região. Somos
contra as empresas brasileiras. Também,
exigimos que sejam desapropriadas todas as fazendas
que estejam na Faixa de Fronteira, pois isso ameaça
nossa soberania nacional.
Colaborou Elisa Simon