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Missão Paraguai: Transição,
Ameaças e Desafios

DEFESA@NET 03 Agosto 2008

DEFESA@NET

Missão Paraguai

3 - Camponeses planejam lutar por
reivindicações históricas

Reportagem: Kaiser Konrad
Fotos: Guido Berger
Enviados especiais ao Paraguai

Uma trégua havia sido acertada entre o presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, e integrantes do Movimento Campesino Paraguayo. Até sua posse, em 15 de agosto, não seriam realizadas invasões de terras e nem protestos com a interdição de rodovias. As manifestações que estavam previstas para começar junto com o mandato de Lugo estão sendo antecipadas e vão acontecer a partir da próxima semana. O objetivo das ações é lembrar o novo mandatário que a reforma agrária é uma de suas principais promessas de campanha e deve ser prioritária em sua agenda política.

Segundo informou a agência de notícias ANSA, o presidente da Coordenadoria de Produtores Agrícolas de San Pedro Norte, Elvio Benitez, disse que o alvo das invasões serão as propriedades de argentinos e brasileiros. Ele havia se reunido com o presidente eleito do Paraguai a quem convidou para assistir o ato de reivindicação das terras, que vai ocorrer dia 5 de agosto. Lugo foi Bispo da diocese de San Pedro durante vários anos e conta com milhares de simpatizantes na região.

Os estrangeiros proprietários de terras se preparam para confrontos com integrantes de movimentos sociais em todo o país. Armados com equipamento militar adquirido em Ciudad del Este, e alguns deles treinados pela Polícia Nacional e pelo Exército Paraguayo, os agricultores defenderão suas propriedades “até a última bala se for necessário”. Pais, filhos e milicianos paraguaios e brasileiros prometem trazer a guerra para o campo se suas plantações forem destruídas e as propriedades invadidas.

O movimento campesino paraguaio nasceu em 1980, como forma de resistência à ditadura militar que governava o país. Está fundamentado na “luta pelos interesses imediatos e históricos dos trabalhadores rurais e urbanos, homens e mulheres de todas as idades”. A luta pelos interesses históricos, está muito bem caracterizada pelo combate à “influência do Brasil na política e na agricultura paraguaias”.

Mas a prática do MCP contrasta com seu discurso. Algumas das terras assentadas foram vendidas aos estrangeiros para que os campesinos retornassem à luta. Em outras áreas, o plantio da maconha se tornou a principal atividade econômica dos novos assentados. O lucro obtido com a venda da droga – principalmente ao Brasil – tem patrocinado várias de suas ações e deslocamentos pelo território nacional.

Em Santa Fé del Paraná está localizado o único assentamento campesino no distrito. Intitulado de Katupyry Santiago Martinez, o assentamento reúne numa área de 63 hectares de terra, 63 famílias. “De tratamento médico à educação, tudo o que eles têm vem de nossa prefeitura e dos brasileiros”, disse o prefeito da cidade, Joaquim Maciel. E só foi através do contato dele que a equipe de Defesanet conseguiu entrar no local e conhecer a realidade dos assentados.

Syndulfo Martinez
Armazém do assentamento campesino
em Santa Fé del Paraná

Desconfiados, eles receberam a reportagem com dois “guardas” armados com foices. Vivendo numa cooperativa, e coordenados por um chefe de produção e um “condutor político”, os assentados vivem na miséria absoluta. Como a maior parte dos campesinos, eles vieram das cidades e não da zona rural, o que é demonstrado na lavoura quase inexistente, embora a terra seja altamente produtiva. A reportagem não teve liberdade para conhecer o local, mas conseguiu uma entrevista exclusiva com o líder do movimento na região do Alto Paraná, próxima à fronteira com o Brasil.

Syndulfo Martinez – Nós defendemos um modelo de produção popular e somos integrantes de uma organização política de esquerda. Estamos fazendo uma campanha nacional com o tema Soberania Nacional, onde abordamos a questão da soja, uma monocultura empresarial majoritariamente brasileira que utiliza grãos transgênicos e é a principal responsável pelos quase três milhões de paraguaios pobres. No momento estamos fazendo uma revolução política, iniciando a discussão de temas culturais, econômicos e territoriais. Esses assuntos, da forma tratada nos governos anteriores, feriam a soberania nacional do Paraguai. Agora, estamos convidando todas as classes sociais, dos comerciantes aos estudantes, a resistir a este modelo imperialista brasileiro, promovendo invasões de terras, revendo nossas discussões sobre sua posse aos paraguaios assim como a rediscussão territorial e do Tratado de Itaipu.

Defesanet - Quais são os objetivos do MCP na região da fronteira com o Brasil?
Syndulfo Martinez –
Nesta região estamos denunciando a questão da Tríplice Fronteira. O governo dos Estados Unidos afirma que esta é uma área com atividade terrorista, e onde quer instalar uma base da CIA. Mas nossa principal reivindicação e que nos afeta mais nesta região é a questão da rediscussão do Tratado de Itaipu. Esta usina é binacional e cada país tem a mesma parcela dela. Mas não é isso que está acontecendo. O governo imperialista brasileiro está explorando o pobre povo paraguaio e nós vamos reivindicar da Usina o que nos é realmente de direito.

Acampamento do MCP dentro
da área da Itaipu Binacional

Defesanet – As ações realizadas aqui são coordenadas com o MST do Brasil?
Syndulfo Martinez –
Sim. Todas as ações de invasão de terras e interdição de rodovias realizadas por nós são coordenadas e tem a cooperação do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra do Brasil. Essa união deve-se ao fato de que toda nossa luta é contra as multinacionais brasileiras, uma luta comum entre os campesinos dos dois países. Este é o único assentamento na região do Alto Paraná que só possui paraguaios. Nos demais há forte presença de campesinos brasileiros.

Defesanet – O senhor acredita num conflito com os brasileiros pela posse da terra?
Syndulfo Martinez –
Nós estamos em contato com o MST (Brasil) para empreender ações nesta região. Somos contra as empresas brasileiras. Também, exigimos que sejam desapropriadas todas as fazendas que estejam na Faixa de Fronteira, pois isso ameaça nossa soberania nacional.


Colaborou Elisa Simon

Defesa@Net

Operação Fronteira Sul 2008 Presença e Dissuasão - Entrevista com o Comandante Militar do Sul - Gen Ex José Elito Carvalho Siqueira
http://www.defesanet.com.br/eb1/gen_elito.htm
   
   
 

 

 

 

 

   
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