| Nelson
Jobim: "Defesa é ter a capacidade de dizer
'não' quando necessário"
(texto en español)
Javier
Lafuente
Em
Madri
Matéria Traduzida pelo UOL Notícias
Nota
Ministério da Defesa
Correção de tradução
da entrevista de Jobim ao “EL Pais”
Alertamos
que em algumas traduções da entrevista
do ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim,
ao jornal espanhol El País, publicada nessa
quarta-feira (28/10/2009), houve a supressão
da palavra “não”, o que inverte
o sentido da frase do ministro, em um tópico
relacionado ao submarino nuclear.
O
ministro disse que o acordo com os franceses tem
que ver com a “parte não nuclear
do submarino” (“...tiene que ver exclusivamente
con la parte no nuclear del submarino.). Algumas
traduções, no entanto, por equívoco,
omitiram a palavra não, invertendo o sentido
da resposta e o objeto do acordo com os franceses.
A
versão original da entrevista, em espanhol
("Una buena defensa es tener la capacidad
de decir que no") pode ser consultada no
portal DefesaNet :
http://www.defesanet.com.br/md1/br_es_1.htm
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El
País: Existe uma corrida armamentista na região?
Nelson
Jobim: Não, o que há é
uma recuperação do tempo perdido. O único
conflito que há na América do Sul é
o da Colômbia, com as Farc [a maior guerrilha
colombiana]. O resto é uma necessidade de defender
os recursos que se tem. É preciso compreender
que a América do Sul tem a melhor capacidade
energética da América Latina em hidrocarbonetos
e energias alternativas. Pensamos que hoje ter uma boa
defesa é ter a capacidade de dizer não
quando é necessário dizer não.
El
País: De quê o Brasil precisa se defender?
Jobim:
O Brasil não tem nenhum problema. Não
tem inimigos. Mas existe a percepção de
que precisamos ter a capacidade de defender todas as
nossas infra-estruturas sensíveis, todas as nossas
necessidades. Também a Amazônia. Há
uma percepção internacional muito falsa.
O Brasil vai cuidar da Amazônia para o Brasil
e para todo o mundo, mas o Brasil vai cuidar dela. Esse
é um assunto nosso, e não do mundo.
El
País: Para quê o Brasil precisa de um submarino
nuclear?
Jobim:
Trata-se de um submarino de propulsão nuclear,
e não de ataque. A plataforma continental brasileira
abrange 4,5 milhões de quilômetros quadrados.
A grande riqueza brasileira está a 160 milhas
do litoral. Há necessidade de resguardar esses
recursos.
El
País: Enquanto vocês negociam com a França,
a Venezuela flerta com o Irã. Que risco há
de que ocorra uma nuclearização da região?
Jobim:
Nenhum. Nós dominamos a tecnologia do enriquecimento
de urânio há muito tempo. O uso do Brasil
é para fins pacíficos. Devemos ser um
dos poucos países que têm na Constituição
uma norma que proíbe ter armas nucleares. O acordo
com os franceses (não - ver nota do MD acima)
é com a parte nuclear do submarino de propulsão
nuclear. O reator e o combustível são
brasileiros.
El
País: Mas lhes preocupa um eventual plano venezuelano
para desenvolver armas nucleares?
Jobim:
Não, não creio que a Venezuela vá
desenvolver nenhum tipo de arma nuclear. A América
do Sul é uma região de paz, que tem seus
conflitos políticos, mas não é
como a Europa ou o Oriente Médio, onde há
uma tradição de guerras.
El
País: Serão tratados assuntos de cooperação
nuclear na próxima visita de Mahmud Ahmadinejad
ao Brasil, no final de novembro?
Jobim:
Se o presidente Ahmadinejad tratar com o presidente
Lula de temas nucleares será com fins pacíficos
e não militares. Não há qualquer
possibilidade de qualquer tipo de desenvolvimento, pesquisas
ou estudos no sentido militar, somente da propulsão.
Para armas nucleares, não. Impossível.
El
País: Depois do surto de violência nas
favelas do Rio de Janeiro, estão pensando em
enviar militares?
Jobim:
Não, não é o momento. A polícia
tem a possibilidade de controlar isso. Se o governador
tiver necessidade em algum momento, o exército
poderá participar. Não é algo que
se deva descartar, mas neste momento não há
necessidade. A queda do helicóptero é
um caso isolado. Mas se for necessário as Forças
Armadas brasileiras têm a capacidade de atuar
em ambiente urbano para manter a ordem. A partir de
agora vamos ter notícias desse tipo o tempo todo,
principalmente daqueles que não queriam que o
Rio fosse a sede dos Jogos Olímpicos.
El
País: Qual a sua opinião sobre os crescentes
gastos da Venezuela em armamentos?
Jobim:
Esse é um assunto da Venezuela. Nós não
podemos lhes dizer o que devem fazer. A Venezuela deve
decidir seu próprio caminho. O presidente Chávez
tem a legitimidade democrática, porque foi eleito
para isso, para tomar decisões. Eu não
creio que a posição do presidente Chávez
seja para atacar ou agredir alguém.
El
País: Então não lhes incomoda que
a Venezuela compre cada vez mais armamentos?
Jobim:
Não, absolutamente. As relações
do presidente Chávez com o Brasil são
muito boas. Há questões como a Alba, a
questão bolivariana, da qual não participamos,
mas isso é um direito deles.
El
País: Existe a necessidade de reconhecer que
a multipolaridade é uma realidade?
Jobim:
Quando se derrubou o Muro de Berlim havia uma unipolaridade;
depois o governo Bush confundiu a guerra com as cruzadas
medievais e não compreendeu que havia uma multipolaridade.
A gestão dos EUA com a América do Sul
passa por um problema: seu tratamento do povo cubano.
Toda a sua política de embargo a Cuba gerou três
coisas: um país muito pobre, um povo muito orgulhoso
e a grande desconfiança da América do
Sul. A visão que se tem dos EUA na América
do Sul é condicionada por Cuba.
El
País: Em questão de um ano os EUA instauraram
a Quarta Frota; depois o assunto das bases na Colômbia.
Que riscos tem para o Brasil a presença militar
norte-americana na América do Sul?
Jobim:
A presença militar dos EUA é muito antiga.
Primeiro estiveram em Manta, no Equador. Agora na Colômbia,
para apoio logístico na luta contra o narcotráfico
e as Farc, não para atacar outra parte. Para
nós não há nenhum problema. Com
a Quarta Frota se fez muito barulho. Mas agora está
consolidada mais como um fator administrativo interno
dos EUA. Mesmo assim, se eles decidirem instaurar uma
frota é um assunto deles. É como se o
Brasil decidisse incrementar substancialmente sua presença
militar na Amazônia; é uma questão
brasileira e eu não teria de perguntar aos EUA.
Tradução:
Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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