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- Marinha batalha por mais verbas
para defender petróleo
Parte 1 - Parte
2
Com
a descoberta de petróleo e a ampliação
da Zona de Exclusividade Econômica, proteção
da região ganha importância estratégica
e coloca em discussão o reaparelhamento das Forças
Armadas
Marcelo
Cabral
Bastam
poucos números para se perceber a importância
dos oceanos para o Brasil. É do mar que vêm90%
do petróleo e 70% do gás consumido no
país. De quebra, é através dos
caminhos marítimos que passam 95% das trocas
comerciais feitas com o exterior. E a vocação
estratégica da região costeira cresceu
ainda mais com a descoberta de petróleo na camada
pré-sal – uma riqueza potencial que pode
chegar à casa de trilhões de dólares
– e com o pleito brasileiro junto à Organização
das Nações Unidas (ONU) para aumentar
dos atuais 200 para 350 milhas náuticas o limite
da região onde o país tem exclusividade
de exploração econômica.
Portanto,
não é de admirar que o governo pense em
como defender essa área vital de olhares pouco
amistosos vindos de fora. “Essa é uma região
estratégia não só por seus recursos,
mas pela dimensão geopolítica que o petróleo
assumiu. As novas plataformas em alto-mar vão
envolver umsistema intrincado de logística e
transporte de suprimentos, combustível, peças
e funcionários, além dos dutos de petróleo
e gasolina. Todo esse complexo precisa ser protegido”,
afirma Giorgio Romano, coordenador especializado emdefesa
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
O problema é como conseguir dinheiro para isso.
“As
novas plataformas emalto-mar vão envolver um
sistema complexo de logística e transporte de
suprimentos, combustível, peças e funcionários,
além dos dutos de petróleo e gasolina.
Todo esse complexo precisa ser protegido”
Giorgio
Romano, coordenador de Defesa do Ipea
Plano
em xeque
Recentemente
foi lançado o Plano
de Articulação e de Equipamento da Marinha
do Brasil (PEAMB), que prevê a reorganização
e o reequipamento da força naval até 2030.
Mesmo sem especificar uma valor preciso para o investimento
necessário, esse planejamento já enfrenta
uma verdadeira batalha com a falta de verbas para se
traduzir em ações efetivas. “Precisamos
de mais naviospatrulha e submarinos para vigiar a região.
Também é necessário modernizar
os jatos de ataque A-4 Skyhawk e os de patrulha P-2
Neptune”, lista Daniel Filho, do núcleo
de Defesa e Pesquisas Estratégicas da Universidade
Federal de Juiz de Fora (UFJF). “Mas não
basta comprar os sistemas, é preciso de armas
propriamente ditas. Temos pouquíssimos torpedos
e mísseis mar-mar. E a Força Aérea
não possui nenhummíssil antinavio em operação
hoje. Então não adianta ter submarino
nuclear se ele não tem o que disparar”,
completa.
O
próprio ministro da Defesa, Nelson Jobim, tem
cobrado seguidamente a liberação de mais
recursos. “Há uma real necessidade de otimizar
as proteções das plataformas brasileiras.
Grande parte da riqueza do país se encontra na
costa”, afirmou a jornalistas durante entrevista
concedida no mês de setembro.
Jobim
também tem sugerido que a Petrobras arque com
parte dos recursos do reequipamento, uma vez que ficará
com a maior fatia da receita vinda do óleo. “Precisamos
melhorar as condições operacionais da
Marinha. Esse é um assunto que interessa também
à Petrobras. Evidentemente, a empresa tem que
participar dos custos de implantação do
serviço”, disse. A reportagem procurou
falar diretamente com a força naval, mas não
teve nenhum tipo de retorno até o fechamento
desta edição.
Alternativas
na busca por recursos incluem
royalties e fixação de investimento mínimo
No
papel, a Marinha não deveria ter escassez de
verbas. Afinal, a legislação destina uma
parcela de 15% dos royalties petrolíferos para
a instituição. O problema é que,
na prática, esses recursos ficam contingenciados
para gerar caixa para o governo. Para 2009, por exemplo,
o orçamento da Marinha é de aproximadamente
R$ 1,8 bilhão. Desse total, apenas R$ 800 milhões
passaram pelos cortes feitos no orçamento do
ministério. Como a maior parte será gasta
com custeio, especialmente salários, não
sobra quase nada para novos projetos. O porta-aviões
São Paulo, por exemplo, está parado há
cinco anos devido à falta de recursos. “Com
tudo o que foi bloqueado nos últimos tempos,
a Marinha poderia bancar uma parte do programa de reaparelhamento”,
calcula Giorgio Romano, do Ipea. Segundo Daniel Filho,
da UFJF, a Marinha vê hoje duas alternativas para
sair vitoriosa na luta por um orçamento maior.
Uma delas seria estabelecer uma lei que garanta que
um percentual mínimo do Produto Interno Bruto
(PIB) seja investido em Defesa. Outra seria pressionar
por uma regra que proíba o contingenciamento
de recursos vindos do pré-sal. Nem todos concordam
com essas opções, porém. Um deles
é Salvador Raza, professor da National Defence
University (Universidade de Defesa Nacional), nos EUA.
“A meu ver, existe um problema sério com
esses modelos. Eles deixam nas mãos da Marinha
decisões que deveriam ficar com o governo, como
construir ou não um submarino nuclear. É
um cheque em branco”, observa ele. “É
preciso garantir que os interesses da Marinha fiquem
subordinados ao do Brasil, e não o contrário”,
opina o analista.

Sivam
da Amazônia azul
Ainda
em fase experimental, rede digital de informações
não tem custo e prazo definidos
Marcelo
Cabral
Além
de armamentos, os campos do pré-sal podem ser
responsáveis também pela criação
do “Sivam do mar”, um sistema integrado
que vai colocar sob vigilância toda a costa e
o mar territorial do Brasil – uma região
conhecida como Amazônia Azul, no jargão
utilizado pela Marinha. A comparação com
o Sistema de Vigilância da Amazônia não
é vã: enquanto o Sivam vigia uma região
de 5 milhões de quilômetros quadrados de
floresta, o novo Sistema de Gerenciamento da Amazônia
Azul (SisGAAz), projetado pela Marinha, deverá
controlar uma área aproximadamente do mesmo tamanho,
mas localizada sobre as águas do Oceano Atlântico.
O
projeto ainda está em fase experimental; a Marinha
não fala nem em custos nem em prazos para a implantação.
O que se sabe, porém, é que o sistema
vai recolher e integrar dados vindos de navios, aviões,
helicópteros, radares terrestres e satélites.
Centros de controle digitais que deverão ser
construídos em diversos pontos do litoral vão
coordenar o tráfego de navios até as plataformas
petrolíferas, o transporte marítimo nos
portos, o combate ao contrabando e à pesca ilegal
e ainda deverão ter recursos para ajudar a prever
mudanças climáticas – como eventuais
tempestades que possam atingir o país –
a poluição do oceano e ainda coordenar
operações de busca e salvamento.
Sistema
vai integrar informações de navios, aviões
satélites e radares para patrulhar região
do tamanho da Amazônia
HOJE
E AMANHÃ
-
Hoje, a Marinha possui apenas 14 fragatas e corvetas
capazes de operações oceânicas.
- A frota nacional de submarinos é formada
atualmente por cinco unidades de tecnologia alemã.
- Os planos da força naval preveem aumentar
para 30 o número de navios capazes de fazer
patrulhas em alto-mar.
- Também seriam construídas algumas
dezenas de navios de menor porte, para vigiar a linha
mais próxima da costa.
O
ministro Nelson Jobim defende que a Petrobras arque
com parte dos recursos necessários para reaparelhar
a frota naval.
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