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Energia - Energy

Defesanet 18 Julho 2005
Isto É Dinheiro Julho 2005

É a política, Petrobras

Joaquim Castanheira

O nó em que a Petrobras se enroscou na Bolívia revela como pode ser tortuoso o caminho de uma empresa rumo à internacionalização. A estatal brasileira está pagando por sua inexperiência, mas sobretudo por não dar a devida importância a um ingrediente que, nas últimas décadas, é parte integrante do mundo corporativo: a política. Seu peso nas decisões de negócios varia de setor para setor, porém naqueles mais regulamentados, como energia e telefonia, ele se torna estratégico, como a Petrobras está descobrindo neste momento. Trata-se de uma experiência da qual a companhia, e o próprio governo brasileiro, podem tirar lições preciosas.

Na política encontra-se o berço dos problemas enfrentados pela Petrobras no país vizinho. Na quarta-feira 28, o governo boliviano adotou medidas que, para muitos, significaram a estatização das reservas de petróleo e gás do país. Aprovada em maio pelo Congresso e regulamentada pelo presidente Eduardo Rodriguez na quarta-feira 29, a Lei dos Hidrocarbonetos permite o aumento do imposto cobrado sobre a produção de gás e petróleo de 18% para 32%. Além disso, segundo a nova legislação, as empresas estrangeiras são obrigadas a pagar royalties de 18%. Mais: a estatal boliviana Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YFB) ganhou o direito de fiscalizar e controlar todas as operações de produção do País, se necessário, com o apoio das Forças Armadas. Um dia depois, na quinta 30, veio nova paulada, com o anúncio de uma auditoria em todas as operações comandadas por estrangeiros.

A Petrobras tem muito a perder nesse cenário. A companhia brasileira opera dois campos de petróleo, com reservas de 600 bilhões de metros cúbicos, cerca de 40% das reservas do País. Uma fatia de 44,5% do gasoduto Brasil-Bolívia lhe pertence. Sua rede de postos de combustíveis possui 80 pontos. Desde 1995, a estatal colocou no mercado boliviano algo em torno de US$ 1,5 bilhão. Esse investimento não será perdido, mas certamente seu valor caiu drasticamente. Afinal, quanto vale uma concessão marcada por fortes regulamentações que limitam a liberdade de atuação?

Os problemas poderiam ser menores, se a Petrobras houvesse dado peso maior para os aspectos políticos do investimento. A instabilidade política é uma marca registrada na América Latina, a Bolívia em particular. Lá, em menos de dois anos, a presidência teve três ocupantes. O penúltimo foi Carlos Mesa, apeado do poder justamente em virtude dos protestos contra a exploração de gás e petróleo por parte de grupos estrangeiros. Medidas estatizantes e ataques a investidores externos têm forte impacto em momentos de crise política. A própria Petrobras enfrentou essas situações na Argentina recentemente. Numa delas, o governo de Nestor Kirchner cobrou publicamente da empresa mais investimentos no País. Logo depois, o presidente argentino abriu outra frente de batalha com os distribuidores de combustível em função de aumentos nos preços de produtos. Sobrou mais para a Shell, mas a Petrobras também foi cutucada.

De certa forma, a Petrobras paga o preço pelo pioneirismo. Empresas brasileiras ainda engatinham no processo de internacionalização, ao contrário das americanas, européias e japonesas, que acumulam uma larga experiência em atuar para além das fronteiras de suas terras. Nas décadas de 70 e 80, grandes empreiteiras como Mendes Júnior, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa desembarcaram no Oriente Médio atraídas por contratos milionários. Acossadas pela instabilidade política e por guerras entre os países da região acabaram se retirando e amargaram centenas de milhões de dólares de calote no Oriente Médio.

Essas empresas e a Petrobras acabam provando do veneno que seu país de origem aplica às corporações estrangeiras. Quando multinacionais queixam-se da constante mudança de regras e do vaivém político pode parecer um capricho de executivos estrangeiros, uma forma de pressão para obter vantagens ou incentivos. Óbvio que isso existe. Mas pergunte para os dirigentes brasileiros da Petrobras quanto uma crise institucional pode custar para uma empresa. É provável que eles já não considerem o cenário político uma questão secundária na hora de tomar uma decisão de negócios

Defesa @ Net
"Quem controla o gás que a Petrobras tira da Bolívia?"
http://www.defesanet.com.br/energia/bolivia_mamani.htm

É a política Petrobras - IstoÉ Dinheiro
http://www.defesanet.com.br/energia/bolivia_petrobras.htm

Além do Fato: Integração energética sul-americana
http://www.defesanet.com.br/energia/mercoenergia.htm

Chile Considers Australia as LGP supplier
http://www.defesanet.com.br/energia/mercoenergia_1.htm

 

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