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DEFESA@NET 27 Julho 2008
ZH 27 Julho 2008 - Cuba

General Newton Cruz
Confidências de um general

Newton Cruz, 83 anos, entrou para a história recente
do país como um ícone da ditadura militar

( parte um - parte dois)


Carlos Wagner

O arquivo de Newton CruzOs anos arquearam o corpo. Mas ficaram ilesos à passagem do tempo o tom forte e vibrante da voz e o uso de um vocabulário sem meias palavras na defesa da sua opinião e do seu currículo. Assim é o general Newton Cruz, um homem de 83 anos que entrou para a história recente do país como um ícone da ditadura militar (1964-1985).

Gen Newton Cruz

Newton Cruz se considera traído pelos colegas de farda com quem ajudou a consolidar o golpe de 1964. Foi para a reserva em 1985 como general-de-divisão sem realizar o sonho de ganhar a quarta estrela que o tornaria general-de-exército, o posto que ambicionava na carreira iniciada como cadete da Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, em 1941. Na sua opinião, dita de maneira clara e contundente, a traição foi o cartão de visita dos seus camaradas revolucionários para o novo governo que se instalou no país em 1985, a Nova República.

O general é um defensor ferrenho da exatidão no uso do português. Diz que a precisão é um cacoete que desenvolveu nos tempos em que era oficial de artilharia. Se planejar mal um tiro de canhão, o alvo pode ser a tropa amiga, lembra. O general tem um outro costume do qual pouco fala: o de ser guardião dos segredos dos Anos de Chumbo. Uma tarefa que desempenhou durante o regime militar, quando foi os olhos e ouvidos dos governantes, responsável por várias funções no extinto Serviço Nacional de Informações (SNI).

Orgulha-se de dizer que foi um autodidata na ciência das informações que orientaram muitas das decisões de um dos seus amigos, o general João Baptista Figueiredo, último presidente militar do Brasil. Figueiredo era um oficial de cavalaria de temperamento forte, como Newton Cruz. Em quase duas décadas de convivência, nunca tiveram uma briga séria.

Militar diz ser eleitor de Lula

Para quem tem mais de 40 anos, o general dispensa apresentação. Newton Cruz foi protagonista de dois episódios rumorosos no início da década de 80. Na noite de 24 de abril de 1984, véspera da votação da Emenda Dante de Oliveira - que pretendia resgatar o direito dos brasileiros de eleger o presidente da República - , o general, na época à frente do Comando Militar do Planalto, entrou em ação ao bater com o bastão de comando nos veículos que participavam de carreata pela aprovação da emenda, em Brasília.

Dois anos antes, em outubro de 1982, o jornalista Alexandre von Baumgarten e a mulher dele foram assassinados misteriosamente. Conforme uma das versões, ambos foram seqüestrados na madrugada do dia 13, no momento em que fariam um passeio de barco. Os dois apareceram mortos dias depois, assim como o barqueiro Manoel Pires. No início de 1983 veio à tona um dossiê - "em três dezenas de linhas de infâmia", segundo o general - preparado pelo jornalista meses antes de sua morte, no qual afirmava que havia ordem para matá-lo e que Newton Cruz seria o principal interessado. Em 1992, o general foi julgado e inocentado do crime. Mas os danos políticos alteraram os rumos de sua carreira.

Ele diz que a imprensa só ouviu seus inimigos, a maioria militares da chamada linha-dura do governo, grupo ao qual ele garante nunca ter pertencido. Essa é a face visível do general. A outra é a sua atuação na organização dos métodos de coleta de informações no SNI. Perguntado por que o "I" do SNI quer dizer informação, e não inteligência, respondeu:

- Ao contrário do que aqueles que não trabalham com coleta de informes acreditam, as agências de espionagem são um desastre. Portanto, é forçar a barra chamar de serviço de inteligência. Lembra da Baía dos Porcos? - pergunta, numa referência à tentativa fracassada de invasão de Cuba em 1961, planejada pela CIA, a mais importante agência de inteligência dos Estados Unidos.

Newton Cruz vive uma vida simples em um pequeno quarto do apartamento de um dos seus quatro filhos, no Recreio dos Bandeirantes, um bairro de classe média do Rio. Seus aposentos são desprovidos de luxo. O único exagero é o número de folhas de papel que está usando para escrever, a caneta, suas memórias, tarefa que já iniciou e interrompeu uma dezenas de vezes.

- Sempre que fico emocionado e vou fundo escrevendo minhas memórias, acabo dando mais um nó na corda ao redor do meu pescoço - disse a Zero Hora.

Não é costume do general falar com jornalistas. Alega que sempre que falou acabou sendo mal-interpretado. Depois de insistentes pedidos por telefone, Newton Cruz aceitou receber ZH no último dia 10 em seu apartamento. No começo da conversa, uma confidência:

- Aqui, sou o único da casa que vota no Lula.

Com boa memória e cuidadoso na precisão, o general recorre a anotações quando a dúvida persiste em relação a datas e nomes. A entrevista começou às 9h30min e se estendeu até as 16h. Com um pequeno intervalo para o almoço. Antes da refeição, Newton Cruz se permite um "luxo", como ele próprio define: tomar meio copo de cerveja. No resto do dia, consome cafezinhos. Dos tempos em que vivia em Brasília, ele guarda com saudade os passeios a cavalo. Nos dias de hoje, aproveita as manhãs para caminhar pelas ruas do bairro. De cabeça erguida, frisa ele.

   
   
   
 

 

 



 

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