João
Pedro Stédile Por João Pedro Stedile
"Querem desmoralizar quem faz luta social nesse
país"
A conclusão - e diagnóstico da reforma
agrária - é da maior liderança
nacional do MST, economista João Pedro Stédile,
ao analisar a campanha difamatória da mídia
e da oposição contra o movimento e sua
luta pela terra.
"Querem
desmoralizar quem
faz luta social nesse país"
A
conclusão é do ativista e economista
João Pedro Stédile, um dos fundadores
e uma das mais representativas vozes, hoje, do Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao analisar
a campanha difamatória perpetrada pela mídia
e oposição brasileiras que colocou o
MST no centro das discussões nacionais, e conseguiu
a instalação de uma CPI contra a organização.
Segundo
Stédile, "o principal objetivo da CPI
do MST é provar que o governo vai destinar
dinheiro para o MST para fazer campanha para a (ministra)
Dilma Rousseff", o que, na realidade, constitui-se
na construção de mais um factóide
pela mídia e oposição. A Comissão
é também, na avaliação
de Stédile, uma resposta dos setores retrógrados
da sociedade brasileira à vitória dos
movimentos do campo que, junto ao governo, conquistaram
a alteração dos índices de produtividade
utilizados pelo INCRA.
Quanto
ao episódio da ocupação da fazenda
do grupo Cutrale e a derrubada de laranjais, Stédile
reconhece que houve erro, mas aponta a superexposição
do episódio na mídia. Denuncia, inclusive,
que a invasão da casa de funcionários
e a quebra dos tratores por ocupantes da fazenda é
uma mentira. De acordo com o relato de Stédile,
as imagens exploradas pela mídia foram feitas
muitos dias antes que começassem a ser apresentadas
e que aqueles que as fizeram aguardaram o momento
que julgaram mais oportuno para exibí-las e
criar o sentimento que levou ao recolhimento e obtenção
das assinaturas parlamentares para a CPI.
Membro
da direção nacional do MST - e também
da Via Campesina - Stédile faz um diagnóstico
da situação agrária no país.
Fala sobre a importância da agroindústria
e critica a ausência de uma política
clara e focada na agricultura familiar em detrimento
do agronegócio. Este, segundo o economista,
está hoje monopolizado nas mãos de 20
empresas, 70% delas, transnacionais. Nesta entrevista,
o ativista também analisa a contexto americano
após a vitória e posse de Barack Obama
e o próximo ano eleitoral. Mais urgente do
que declinar apoio a um candidato, observa, é
a discussão de um projeto de desenvolvimento
nacional que inclua, de vez, a reforma agrária
na agenda.
[ Zé Dirceu ] Qual a avaliação
que você faz da reforma agrária no governo
Lula?
[
Stédile ]
É difícil fazer esse balanço
isolado do contexto maior da disputa na sociedade
brasileira, hoje, entre dois modelos de produção
agrícola, o agronegócio e a agricultura
familiar.
O agronegócio, na nossa avaliação,
é hoje uma aliança de classes entre
os fazendeiros capitalistas, as empresas transnacionais
e os bancos. Sua produção depende cada
vez mais do crédito financeiro. Tanto é
que para produzirem R$ 90 bi, eles tiram no Banco
do Brasil, R$ 85. Se não tiver esse dinheiro,
não produzem porque não têm capital
próprio.
Por
outro lado, há o modelo da agricultura familiar,
diversificado e com base na mão de obra familiar,
no uso intensivo da terra e voltado para o mercado
interno. A reforma agrária só tem sentido
se for para fortalecer esse segundo modelo. Na realidade,
o que houve no governo Lula, foi um embate permanente
entre esses dois modelos, com ministros dos dois lados.
Por mais que se diga “é possível
a convivência dos dois”, o governo precisava
ter uma orientação política clara:
“a minha prioridade é a agricultura familiar
e o agronegócio que vá para o mercado."
Isso
ele não fez. Deixou que as forças do
capital agissem por conta própria na agricultura,
o que construiu barreiras, porque o capital foi se
fortalecendo com esse modelo do agronegócio.
O resultado disso veio agora no Censo Agrícola
do IBGE. Nos últimos dez anos - parte do governo
Fernando Henrique e todo o governo Lula - houve uma
incontestável concentração na
propriedade da terra e no controle da produção
agrícola.
A
produção do agronegócio é
concentrada por 20 empresas
O MST utiliza um dado econômico revelador: o
agronegócio conta com 300 mil fazendas com
mais de 200 hectares e com 15 mil latifundiários
que detém fazendas acima de 2,5 mil hectares
e possuem 98 milhões de hectares. Esse é
o conjunto do agronegócio que produz R$ 90
bi do PIB agrícola no país. Se você
olhar para quem eles vendem, descobrirá que
20 empresas, hoje, controlam todo o comércio
agrícola brasileiro, tanto o de insumos (para
financiar a produção), quanto o de commodities.
Dessas 20 empresas, 70% são transnacionais
e o PIB delas – segundo dados do Valor Econômico
- atinge R$ 112 bi a R$ 115 bi.
Claro que tem a margem de lucro. Mas podemos perceber
o movimento do capital. Toda a produção
do agronegócio é concentrada por 20
empresas que acumulam essa riqueza que vem da natureza.
Nisso destaca-se, também, o movimento do capital
que levou a uma maior oligopolização
da agricultura. Há vários segmentos
que se constituem em oligopólios, um nos fertilizantes,
outro nos venenos agrícolas, outro nas máquinas,
no comércio etc.
Por
exemplo, nós somos os maiores produtores de
soja mundial enquanto território, mas vai ver
quem exporta. Quem controla a soja no Brasil, hoje?
Cinco ou seis empresas a Bunge, a Monsanto, a Cargill,
a Dreyfus e a ADM do Brasil. Elas ficam com a maior
parte da margem de lucro. É por isso que nós
até damos risada, porque a burguesia agrária
- essa que se diz representante do agronegócio
- não tem consciência de classe para
si. Se tivesse, teria que se unir com os camponeses
e os trabalhadores agrícolas, para juntos,
enfrentarmos essa espoliação feita pelas
transnacionais. Mas não, ela prefere se unir
exatamente com as transnacionais e dar pau em nós
e na reforma agrária. Esse é o contexto
e o governo Lula, como é um governo de composição
de classes e de uma correlação de forças
muito equilibrada, é o reflexo dele.
[
Zé Dirceu ] Pensando em uma proposta de desenvolvimento
nacional, qual o papel de cada setor no campo, considerando
o agronegócio, a agricultura familiar e a reforma
agrária, processos em andamento, nos próximos
anos? Num governo que tivesse condições
de fazer mais políticas...
[ Stédile ]
O grande desafio que temos nesse período histórico
- nem é conjuntural – é que o
Brasil precisa de um projeto que reorganize a economia
para resolver o problema do povo brasileiro. Um projeto
que, do ponto de vista político, recupere as
massas como atores políticos. E a reforma agrária
está emperrada justamente porque só
fazer assentamentos nos moldes tradicionais do INCRA
não tem futuro, porque está descolado
de um projeto. A reforma agrária só
tem futuro se for parte de um projeto de desenvolvimento
econômico, social e político de todo
o país.
Se
fizermos a reforma agrária com a agricultura
popular dentro desse projeto, precisaremos de uma
nova concepção que parta de alguns princípios
e vontade política. Por exemplo, (por esse
projeto) nós vamos fixar o homem no interior,
combater o êxodo rural. As cidades brasileiras
não agüentam mais esse inchaço.
Nós faremos um processo de distribuição
de renda para que os trabalhadores tenham mais dinheiro
e comprem mais produtos da indústria, ativem
o mercado interno. Dentro desses parâmetros
- parte de um projeto diferente e prioritário
- qual seria o nosso papel enquanto agricultura familiar?
Primeiro:
evidentemente que em algumas regiões do Brasil,
você tem que priorizar o processo de distribuição
de terras. Não precisa ser em todo o país.
Nós temos terra para todos, mas em algumas
regiões, é preciso uma intervenção
do Estado, uma intervenção clara que
combata o latifúndio e garanta uma democratização
do acesso à terra. No Mato Grosso do Sul, por
exemplo, há terras férteis, todos os
climas, mas precisamos da intervenção
do Estado para fazer uma grande reestruturação
fundiária. Na Zona da Mata no Nordeste, a mesma
coisa. É um absurdo continuarmos com a cana
de açúcar, há 500 anos espoliando
aquele povo. Aquilo é semiescravidão.
Portanto, é preciso regionalizar, o que aliás
está em todos os processos de reforma agrária.
É
preciso distribuir terras e
garantir a agroindústria
Segundo: é inviável distribuir terras
sem combinar com a agroindústria. Ela é
a única maneira de o camponês aumentar
sua renda, porque se continuar produzindo apenas matéria-prima,
ele não sairá da pobreza. Então
tem que haver um grande programa que leve a agroindústria
para o interior. Este sim é e deve ser um componente
do projeto nacional.
Ao
invés do BNDES dar dinheiro para grandes multinacionais
como a Nestlé, Parmalat, por que não
fazer um grande programa de pequenas agroindústrias?
Não há problema de escala na agroindústria.
Não é como uma fábrica de automóvel
que exige 30 mil automóveis/dia. Pode ser uma
usina de 5 a 30 mil litros, por exemplo. É
para isso que precisamos dos milhões dados
à Nestlé. Então, que se faça
um programa para a agroindústria. E como ela
é pequena, de pequeno agricultor, tem que ser
sob a forma da cooperativa. Com isso, já elevaríamos
o nível de consciência, porque quando
o cidadão participa de uma cooperativa ele
se transforma em outro cidadão. Participa de
assembléia... E tem emprego para o jovem -
porque o jovem, filho de camponês, não
quer pegar na enxada. E ele tem razão, tem
que estudar. Se houver uma política de agroindústria
no interior, ele terá emprego como tratorista,
analista, trabalhador de informática. Você
leva profissões escolarizadas para o meio rural,
ao invés de trazer a população
do meio rural para as cidades.
Quarto
componente do nosso projeto: a educação.
Nós temos que democratizar a educação.
O dado do censo agropecuário é uma porrada
na nossa cara: 30% dos trabalhadores rurais brasileiros
são analfabetos; 80% não terminou o
ensino fundamental. Isso é inaceitável.
A reforma agrária é inviável
se junto você não entrar com a escola.
É isso que vai libertar as pessoas, politizá-las
e transformá-las em cidadãs. Qual é
a política atual? Por exemplo, financiar peruas
e vãs para tirar o jovens do interior e trazer
para a cidade. Isso é uma loucura, uma agressão
cultural, econômica e um desperdício
de dinheiro. O menino fica duas horas para ir e mais
duas para voltar.
Quinto
aspecto: mudar a matriz tecnológica do campo.
Ao invés de utilizar a matriz atual do agronegócio
- já condenada porque baseada só em
mecanização intensiva e agrotóxico
que não tem futuro (eles mesmos dizem isso)
– temos que mudar para uma matriz que consiga
aumentar a produtividade do trabalho e também
a física, dos hectares, sem agredir a natureza.
Genericamente, nós utilizamos o conceito de
agroecologia. As pessoas a concebem através
de técnicas agrícolas para aumentar
a produção do trabalho e física,
sem agredir o meio ambiente.
A
vantagem do Brasil é que nós temos já
um suporte científico acumulado, nas universidades,
inclusive, que nos dá base científica
para fazer a agroecologia.
Recentemente
visitei o sítio Catavento, uma área
recomendada pela querida Ana Maria Primavesi, uma
das grandes cientistas e agrônomas brasileiras
a meia hora do aeroporto de Viracopos (Campinas-SP).
Lá, 36 hectares produzem hortigranjeiros sem
nenhum grama de agrotóxico. É uma maravilha.
Todos os dias eles enchem um caminhãozinho
com três toneladas de produtos. Portanto, está
mais do que provado, nós temos conhecimento
científico para esse tipo de produção.
Aproveito,
inclusive, para fazer uma denúncia. Em relação
aos produtos orgânicos, os supermercados já
perceberam que classe média está cada
vez mais consciente de que a saúde vem em primeiro
lugar. Aí vem a colocação clássica:
“produzir orgânico é muito caro”.
Isso é mentira. Muito pelo contrário!
Produzir orgânico é mais barato. O problema
é que como as redes de supermercados estão
monopolizadas e já sacaram que o produto orgânico
é um nicho de alta renda, colocam a taxa de
lucro lá em cima. Fui lá em julho e
esse companheiro do sítio Catavento me mostrou:
estava produzindo tomate em pleno inverno com uma
estufa. Ele estava vendendo para o Pão de Açúcar
a R$ 3,70 o quilo de tomate e a dona Maria estava
comprando a R$ 17 o mesmo tomate em São Paulo.
O supermercado sacou o nicho e colocou sua taxa de
lucro lá em cima. Não é mais
caro.
Nós
podemos produzir em escala, já temos tecnologia.
Um dos especialistas que diz isso é o prof.
Luis Carlos Pinheiro, ex-presidente da EMBRAPA. Inclusive,
ele está nos assessorado no Paraná para
produzirmos em áreas 500 a mil hectares leite
orgânico sem nenhum tratamento químico
de medicamento para as vacas.
[
Zé Dirceu ] Nesse quadro que você descreve,
como fazemos reforma agrária, na base da pressão
e da luta, é completamente irracional. Assentar
300 pessoas aqui e mais 300, duzentos km lá
na frente, é inviável. E quanto à
assistência técnica, estrada, educação
na zona rural, melhorou alguma coisa além do
crédito para a agricultura familiar? Afinal,
a questão da assistência técnica
é fundamental na agroindústria.
[ Stédile ]
Há dois aspectos, o primeiro foi o desmonte
que o Fernando Henrique fez. No caso da política
agrícola foi mais sério, porque eles
acabaram com todo o serviço público
agrícola. Portanto, pegamos essa herança
maldida. No caso da assistência técnica,
o governo Lula ampliou os convênios para que
ONGs e cooperativas dessem essa assistência.
Resultado: o público atendido aumentou, mas
o método continua um atraso.
Nós
defendemos que só é possível
universalizar e ter uma direção política
para a assistência técnica se for estatal.
Só
resolve com uma
assistência técnica pública
[
Zé Dirceu ] Um órgão nacional?
[ Stédile ]
Um órgão nacional, que faça convênios
com as EMATERs (empresas estaduais agrícolas
de assistência, tecnologia e extensão
rural). Contrate os funcionários para esse
serviço público pela CLT. Não
precisa de concursos públicos, nem de estabilidade.
Pode até colocar alguns condicionantes, por
exemplo, o sujeito para ser agrônomo da assistência
técnica tem que morar no interior, ou não
pode morar em cidades com mais de 50 mil habitantes.
Hoje, temos mais de 400 entidades conveniadas pelo
Ministério do Desenvolvimento Agrário
(MDA) voltadas à assistência técnica.
Isso a direitona não vê, fica procurando
apenas as que são do MST. Porém, isso
não resolve o problema, apenas amplia o público.
O problema só se resolve com uma assistência
técnica pública.
No
que houve melhorias? Na Companhia Nacional de Abastecimento
(CONAB) que voltou a ser uma empresa de abastecimento.
A CONAB tinha sido sucateada completamente e sua recuperação
é o melhor legado que a gestão Lula
deixará, porque ela conseguiu formatar novos
programas voltados exclusivamente para a agricultura
familiar. Aí, nota-se a diferença. Quando
você tem uma empresa pública que atua
com uma orientação e quando não
tem. Não é para todo mundo, mas para
o pequeno agricultor. Então, a CONAB está
desenvolvendo vários programas de compra, seja
antecipada, seja direta do agricultor. Isso é
tudo o que o camponês precisa para trabalhar,
produzir e saber que tem gente que irá comprar.
O
camponês é produtor, não é
vendedor. Quanto tem que ir para o mercado está
ferrado. Repito, uma empresa estatal com um sistema
econômico montado dá certo. Aí
tem que ampliar, botar dinheiro em cima, porque todo
o dinheiro que você botar na CONAB vira alimento
e vai impulsionar esse ciclo.
Combinado com a revigoração da CONAB,
temos a lei dos 30% - ou seja, 30% da merenda escolar
tem que ser de origem da agricultura familiar. Essas
duas medidas, CONAB e os 30%, foram avanços
muito grandes. Em terceiro lugar, sem dúvida,
o programa Luz para Todos, e espero que até
o fim do governo seja praticamente universalizado
o acesso à energia elétrica.
Nós
também apresentamos dois programas complementares
à política agrícola que tiveram
pouca ressonância. O primeiro foi o programa
de habitação - muito difícil
- em que procuramos misturar o INCRA com a Caixa Econômica
Federal (CEF). Veja que nem há problemas de
recursos. Com 15 mil nossos companheiros constroem
casas de dar inveja à classe média urbana.
Mas falta desenvolver uma metodologia. Nós
precisamos construí-la nos próximos
meses para universalizar. Começamos brigando,
já no primeiro mandato (do presidente Lula),
conseguimos avanços no segundo e acredito que
teremos construído umas 40 mil casas. Mas,
isso não é nada perto do que significa
um programa como esses. A primeira coisa que uma pessoa
quer é uma casa com luz elétrica. Isso
fixa o homem no campo. Se eu sei que meu primo está
pagando aluguel para morar numa favela na cidade,
por que vou largar minha casa? Essa é uma condicionante
também para os filhos e envolve uma série
de questões, auto-estima, saúde etc.
O
segundo, também apresentamos um grande programa
de reflorestamento. É barato. Nós poderíamos
fazer um programa de dois hectares por pequeno agricultor
e você refloresta esse país, melhora
a qualidade de vida, combate as mudanças climáticas,
inclusive, caminhando na contramão do agronegócio
que quer acabar com as reservas para desmatar ainda
mais. (O reflorestamento) evita essa estupidez que
fizeram em Santa Catarina, onde não aceitam
mais os 20 metros em cada margem de rio.
[
Zé Dirceu ] Se 2 milhões de pequenos
agricultores plantarem 2 hectares, serão 4
milhões hectares só aí.
[ Stédile ]
Por ano. Aí o cara começa a perceber
a mudança da qualidade e diz: “os outros
dois, mais outros dois, eu vou plantar”.
O
ensino superior no meio
rural tem que ser diferenciado
[
Zé Dirceu ] João Pedro, em relação
à educação, não teve nenhum
programa novo, pedagogia nova para a educação
rural e no campo nesses seis anos e meio (governo
Lula)?
[ Stédile ] Do
ponto de vista de concepção, nós
tivemos sorte. Os dois mandatos do governo Lula contaram
com ministros que tem uma visão diferenciada.
Do ponto de vista de filosofia da educação
mudou. É outro papo. Estamos negociando com
um governo que tem percepção, mas você
não consegue universalizar as políticas
para o meio rural.
Talvez
agora com o novo padrão salarial dos professores,
nós tenhamos uma mudança, que ainda
não é perceptível. Há
professores do Piauí que ganham R$ 75 reais/mês
Então, a lei (piso nacional de R$ 950,00 para
professor instituído pelo presidente Lula)
dará um salto na qualificação
dos professores. Também contamos com a metodologia
em programas pontuais do Programa Nacional de Educação
para Reforma Agrária (PRONERA), mas que não
conseguiu universalizar.
Qual
o grande contribuição do PRONERA? Ele
tem uma metodologia, a da alternância - uma
conquista nossa - para os jovens do meio rural, seja
para filho de assentado, seja para o do pequeno agricultor
que ainda não tem acesso, ou para professores
do meio rural. Você tem que criar cursos superiores
na forma de alternância porque o cidadão
não pode entrar no vestibular comum e vir para
a cidade todas as noites na escola. O ensino superior
no meio rural tem que ser diferenciado.
Primeiro,
porque o jovem terá de ir para a cidade todos
os dias; segundo, os melhores cursos estão
nos municípios acima de 300 mil habitantes;
terceiro, se ele resolver todos esses impasses, ao
terminar o curso, não volta mais.
Então, o que é a alternância?
Você tem dois meses de férias, depois
concentra um período com aula, daí volta
a ter o trabalho normal como professor ou militante
e daqui a três meses volta de novo. Com esse
programa – conquistado ainda no final do governo
FHC, sob muita crítica, porque diziam que era
“picaretagem” – durante a gestão
Lula, nós consolidamos uma experiência.
Hoje, podemos provar que a alternância não
altera a qualidade. Muito pelo contrário, ao
concentrar o conhecimento em períodos, você
pode trazer especialistas daquela área. A alternância
consumou-se como um método.
Agora,
o PRONERA hoje é um departamento com só
três funcionários dentro do INCRA. Administra
recursos alocados para universidades públicas
e depende, evidentemente, da boa vontade da universidade.
Nós temos que conquistar cada curso. Sem falar
que se um promotor elitista entrar na justiça
alegando que aquele curso é discricionário,
dependendo do juiz federal que está no plantão,
o cara dá uma laminar e o curso é suspendido.
Por
exemplo, o único curso de direito que temos
na universidade de Goiás Velho – feito
com vestibular e inclusive com a presença do
ministro Eros Grau, na inauguração,
público e notório que se trata de uma
universidade de qualidade, federal - os alunos fizeram
vestibular, submeteram-se ao método da alternância
e o promotor resolveu entrar na Justiça. Esse
tipo de coisa gera um problemão! Você
tem que recorrer, o INCRA tem que entrar. Então,
qual é a nossa reivindicação?
O PRONERA tem que ser um programa do MEC que consiga
universalizar. Aí ninguém precisa ir
lá convencer a universidade. Ela já
deveria oferecer dentro do seu plano de trabalho,
esses cursos na forma de alternância.
Isso
nós estamos corrigindo. Quero também
citar como um lado positivo, as três universidades
que estamos criando agora uma com o MERCOSUL, a Fronteira
Sul e a Universidade Federal do São Francisco
em Petrolina (PE). A Fronteira Sul, se fosse pela
nossa vontade, daríamos o nome de Universidade
Federal Guarani, porque o território é
o mesmo (das missões indígenas jesuíticas,
no Rio Grande do Sul). Seria uma bela homenagem aos
nossos antepassados que habitaram aquele território.
E ela vai ser a primeira universidade federal com
campus em três estados.
As
três universidades têm uma vocação
rural e estão mais em diálogo com os
movimentos sociais. Nós, portanto, estamos
insistindo para que na grade delas, em seus cursos,
já se incorpore a experiência da alternância
- na forma de freqüentar, no tipo de curso. Não
pode ser engenheiro agrônomo apenas, mas tem
que ser um engenheiro formado em agronomia agroecológica.
Na área de educação o que precisaremos
fazer é isso. E precisamos de uma campanha
séria para erradicar o analfabetismo no meio
rural.
[
Zé Dirceu ] A oposição conseguiu
o número de assinaturas necessário para
que fosse instalada a CPI do MST. Como vocês
estão avaliando isso?
[ Stédile ]
Nós vemos de duas formas: primeiramente, ela
está dentro do contexto maior da luta de classes
no Brasil. Parte daquela parcela da direita parlamentar
brasileira, encrustrada lá no parlamento, que
vive querendo criar factóides para antecipar
a disputa eleitoral. Como o próprio deputado
Ronaldo Caiado (DEM-GO) revelou, o principal objetivo
da CPI do MST é provar que o governo vai destinar
dinheiro para o MST para fazer campanha para a (ministra)
Dilma Rousseff. Isso é ridículo! Mas,
ele falou isso na tribuna. Revela, então, as
motivações ideológicas dele,
ou seja, criar factóides para fazer uma disputa
eleitoral e política besta.
Um
segundo aspecto na análise dessa CPI, aqui
mais da luta de classes, é que eles quiseram
peitar o governo quando nós fizemos essa parceria
na portaria para mudar os índices de produtividade.
Estes precisam ser atualizados por força de
lei. A lei agrária determina – a de 1993
– que os índices tinham que ser atualizados
a cada dez anos. E os índices atuais que o
INCRA usa são de 1975. Uma piada.
Então eles quiseram dar o troco. E contra o
governo, não contra nós, para criar
um constrangimento, um jogo de troca aí. Tudo
contra a possibilidade de atualizar o índice
de produtividade. Então se começa a
CPI num palanque ideológico contra nós.
Evidentemente, sempre que instalam uma CPI fazem o
que querem. Todas as entidades que estão eles
estão dizendo que tem problemas já foram
investigadas pela CPI da s ONGs e tiveram sigilo quebrado.
É como se diz no interior, eles estão
vendo chifres em cabeça de mula. Mas, esse
é o papel da direitona que quer proteger os
seus privilégios.
[
Zé Dirceu ] Como vocês estão vendo
a pesquisa da Confederação Nacional
da Agricultura (CNA) sobre assentamento rural?
[ Stédile ]
Isso não merece nem comentário. É
uma fraude que não tem pé, nem cabeça.
Não é nem uma amostra representativa.
Entre oito mil assentamentos que há no país,
eles (a CNA) escolheram só nove e ao seu bel
prazer. Um deles, em Pernambuco, era da época
da ditadura, emancipado em 1975.
A única explicação que me vem
é que a CNA fez algum jogo de aliança
política com o IBOPE, talvez pagando dívidas
do serviço que o IBOPE fez na época
da campanha da Katia Abreu (senadora do DEM do Tocantins).
É a única explicação que
nos ocorre para tamanho absurdo. A isso (à
pesquisa) todos os pesquisadores sérios reagiram.
Isso depõe contra o IBOPE. O que ficou claro
é que ele perdeu sua credibilidade. Como ele
pode ter se prestado a esse tipo de jogo rasteiro?
Pior ainda, divulgaram a pesquisa deles uma semana
depois do Censo Agropecuário que não
é uma simples pesquisa – no censo, os
pesquisadores do IBGE vão em todos os estabelecimentos
agropecuários desse país.
A
pesquisa da CNA, repito, não tem pé,
nem cabeça. De 8 mil assentamentos, pegaram
nove. Um total de mil famílias de nove assentamentos,
num universo de 1 milhão de famílias
em oito mil assentamentos.
[
Zé Dirceu ] Sobre o episódio em São
Paulo, na fazenda do Grupo Cutrale, qual a avaliação
que você está fazendo? A mídia
conservadora o transformou em escândalo, durante
quase uma semana, ou mais, isso ocupou os principais
noticiários. Qual a sua avaliação,
houve erros na ocupação da fazenda?
Depredação
de trator e invasão
das casas não aconteceram
[
Stédile ] A CUTRALE que tem mais de 30 fazendas
em São Paulo, somando mais de 50 mil hectares,
está em dívida com a Justiça
Federal. Aquela área foi comprada de um grilo
e eles sabiam. Eles partiram para o risco de comprar
uma área grilada, contando com as influências
políticas que tem na República do Brasil.
Como estão acostumados com o monopólio
da laranja, encheram de laranja para consolidar que
a área era produtiva etc. Mas toda aquela área
onde houve a ocupação - nem é
só da Cutrale - é o chamado grande grilo
(terras griladas) do Monção. A origem
desse grilo é de terras que a União
comprou em 1910 - portanto houve dinheiro público
na compra da área original – para um
projeto de colonização para famílias
japonesas que não deu certo. Então,
as terras foram ficando e houve esse grilo. A ocupação
feita agora pelos sem-terra tinha a vontade política,
o objetivo de fazer essa denúncia. Nisso a
ocupação foi eficaz.
Agora,
o fato de terem derrubado laranjais foi um erro dos
companheiros que estavam lá. Nós que
estamos no meio da briga, entendemos o desespero das
famílias que estão há cinco anos
querendo ter a terra e sabem que essa terra é
grilada. O INCRA mesmo disse: “essa terra é
da União”. Então o cara, o sem-terra
chega na fazenda e quer plantar feijão. Evidentemente,
a direita soube explorar muito bem esse fato, a partir
de um erro nosso.
Mais
dia, menos dia, iriam pegar qualquer erro nosso e
exponenciar ao máximo. É o caso das
imagens (exibidas na mídia). Elas foram feitas
no dia 28/09, eles pensaram "quando vamos usar?"
E esperaram, dias e dias, para fazer essa superexposição.
Aquilo não foi uma reportagem sobre a ocupação,
apresentada no dia em que ela ocorreu. Fora o fato
de aquilo ter sido filmado pelo serviço secreto
da PM. Não foi nenhuma reportagem da Globo
que estava lá.
Um
segundo aspecto: todas as outras imagens de depredação
de trator, invasão das casas dos funcionários
são mentira. Aquilo é manipulação.
Nós os desafiamos publicamente a constituirem
uma comissão independente - e com o Ministério
Público, se quiser - e a irem lá e fazer
a perícia para descobrir desde quando esses
tratores estão desmontados. Isso é muito
fácil de verificar. Que a comissão pergunte
para as famílias (de empregados do grupo Cutrale)
se algum sem-terra entrou na casa deles.
Mas, houve o erro, evidentemente, e com esse erro,
a burguesia da elite econômica, que tem o monopólio
da comunicação, está explorando.
E nós estamos pagando caro, porque com isso,
criaram o sentimento que levou ao recolhimento e obtenção
das assinaturas para a CPI.
[
Zé Dirceu ] O ex-ministro da Fazenda tucano,
Luiz Carlos Bresser-Pereira e o ex-presidente da República,
José Sarney, hoje presidente do Senado, apontaram
tanto no caso da CPI, quanto na pesquisa dos assentamentos
feita pelo IBOPE, por encomenda da CNA , a tentativa
de criminalizar o MST. Qual a a avaliação
que vocês fazem?
[
Stédile ]
Esse tema da criminalização nós
temos que entender direito como é usado. Não
é uma coisa que houve, ou que há, numa
época de ditadura. Nós já estávamos
na democracia quando o latifúndio, para se
proteger, iniciou um processo de assassinato e de
violência física contra quem lutava pela
reforma agrária. Esse período nós
já passamos. A violência física
diminuiu, até por conta da nossa forma de organização.
A criminalização agora é muito
mais no sentido ideológico e político.
É com o objetivo de desmoralizar quem faz luta
social. Esse é o sentido da criminalização
do MST e dos demais movimentos sociais.
Daí porque a Rede Globo, o Estadão e
a VEJA se transformaram no principal instrumento dessa
fase de criminalização. Na fase anterior,
eram as armas; agora, o método de tentar nos
desmoralizar é através da imprensa.
Nós temos tido o cuidado de não criar
uma paranóia. Mas, o objetivo desses veículos
e daqueles cujos interesses eles representam é
muito mais no sentido de deslegitimar e desmoralizar
quem faz a luta social. Independente de quem a fizer.
Eles também fazem o mesmo quando tem ocupação
de sem teto e outras coisas. A tentativa não
é de criminalizar só o MST, é
criminalizar todos os movimentos sociais.
[
Zé Dirceu ] É, agora, nas manifestações
das favelas em São Paulo, nas dos bairros na
periferia, contra a PM. Dizem que tudo é baderna.
É a maneira de desqualificarem o caráter
social e político da manifestação
contra a violência da polícia e contra
a falta de atuação do Estado. Os jornais
só dizem que é baderna e que tem que
ser reprimido. Para eles, está tudo certo (a
repressão) e ainda registram “infelizmente
morreu uma criança”.
[ Stédile ] O
que eles fizeram em relação a áreas
em que há despejo, por exemplo, o naquela área
em Embu.
[
Zé Dirceu ] Aquilo foi articulado para ter
apoio dos meios de comunicação. É
um exemplo da polícia para ser aplicado no
país depois. Vão calcar no eleitorado
de direita, conservador. Dizer que o bom é
aquele exemplo do Serra em São Paulo.
[ Stédile ]
Da governadora Yeda Crusius no Rio Grande do Sul também.
A dona Yeda já começou (a governar,
em 2007) sem base social. E como ela se posicionou?
Transformou a Brigada Militar (PM gaúcha) em
cão de guarda do capital. Chamou os setores
do Ministério Publico fascistas, claramente
afinados com sua proposta ideológica e, financiada
por grandes grupos econômicos, tentou impor
um governo ditadorial. Ela se desmoralizou porque
ficou evidente. No governo dela ficou tudo tão
centralizado, que ao ultrapassar o limite da corrupção,
veio a público e ela não pode controlar.
Controla a parte do ministério público
estadual, mas não o federal que, inclusive,
fez as denúncias (de improbidade administrativa
e manipulação de concorrência
e licitações) contra ela.
Acho,
então, que tanto o artigo do Sarney quanto
o do Bresser Pereira foram duas manifestações
das mais lúcidas desse campo da elite intelectualizada
brasileira, porque eles comentaram a razão
dos fatos e não simplesmente a questão
ideológica.
Apoio ou oposição é para
partidos,
movimento social deve ser autônomo.
[ Zé Dirceu ] Qual a avaliação
política que voce faz da atuação
do MST nesse período do governo Lula? Houve
fortalecimento? O movimento está mais ou menos
forte, mais ou menos organizado, com mais ou menos
bases e apoio da sociedade?
[ Stédile ] Nos
últimos anos o MST consolidou um acúmulo
de forças própria. E foi correta a nossa
política em relação ao governo
Lula, de manter autonomia política para resguardar
a saúde que deve ter um movimento social. Ou
seja, nem caímos num adesismo de "agora,
como elegemos o Lula..." – toda a base
dos sem-terra votou no Lula – nem nos transformamos
em puxa-sacos, ou chapas-branca como se diz. Ao mesmo
tempo, não caímos no que certos setores
da esquerda caíram de “ah, o governo
Lula não conseguiu mudar a política
econômica, então vamos para a oposição
e tudo o que vier do governo Lula é ruim”.
Alguns movimentos sociais fizeram essa inflexão.
Foram para a oposição. O que nós
dizemos é que o papel de apoio ou oposição
é para partidos políticos. Movimento
social tem que ser autônomo. Seja qual for o
governo ou o Estado, temos que ter autonomia.
Nós
pagamos caro por essa política. Amigos que
queriam que fossemos adesistas, nos chamaram de esquerdistas.
E os esquerdistas disseram “não, vocês
são muito adesistas”. E difícil,
mas nós estamos convencidos de que essa foi
a política que, inclusive, nos salvou, porque
senão, provavelmente, o movimento teria tido
sérios problemas de crescimento. Essa foi a
situação.
Agora, em relação à reforma agrária,
penso que ela não depende mais do MST. No começo
do governo Lula, havia aquela euforia. No início
de 2003, em torno de 200 mil famílias foram
para acampamentos, porque havia uma vontade política
da nossa parte e achamos, "agora com o Lula",
que haveria o reacenso da massa. E não houve.
Então, a reforma agrária não
depende mais do MST, mas de uma nova correlação
de forças na sociedade. Depende de um reacenso
do movimento de massas porque a classe trabalhadora
que vive no campo é minoritária. Nós
não alteramos mais a correlação
de forças. Ela só irá ser alterada
se houver movimentação social na cidade.
Essa
é a nossa tragédia. Nós somos
um movimento com unidade, temos clareza política,
sabemos onde queremos ir, mas não temos força
própria suficiente para alterar a correlação.
Temos que esperar que a turma da cidade também
faça um movimento que reative o movimento de
massas e que aí sim, altere a correlação
de forças para pressionarmos a realização
de uma reforma agrária mais rápida.
Assim,
os avanços da reforma agrária não
dependem nem do MST, nem só da luta social
no campo. Dependem da luta social no Brasil inteiro.
[
Zé Dirceu ] Como vocês estão vendo
a eleição de 2010, na medida em que
apoiaram direta ou indiretamente a candidatura Lula,
e levando em consideração as conseqüências
para a América Latina, se o projeto político
que o Lula representa for derrotado no Brasil?
[ Stédile ]
Não temos feito um debate mais eleitoral. Estamos
tendo cuidado com isso. O nosso debate interno ainda
é sobre a política geral, a luta de
classes e a correlação de forças.
Em termos gerais, te respondo pelo que é da
tradição da nossa política: primeiro,
manter nossa autonomia; segundo, continuar nosso trabalho
político e ideológico de estimular –
e é assim que nossa militância se comporta
– o eleitor a sempre votar tanto em nível
federal, quanto estadual, quanto municpal, nos candidatos
mais progressistas e que defendem a reforma agrária;
terceiro, há uma vontade e decisão política
de barrar a volta do neoliberalismo.
Luta
contra a restauração
do neoliberalismo
Estamos
e somos contra os projetos de restauração
do neoliberalismo. Sem dúvida, o MST estará
nas primeiras trincheiras da batalha. Fazemos questão
de ajudar a contribuir para que o neoliberalismo não
se restaure aqui no Brasil.
Os
jornalistas perguntam: “vocês são
da Marina, da Dilma, do Ciro etc”, o que respondemos
é que não nos cabe discutir nomes agora.
O que temos que estimular na sociedade brasileira
é a discussão de um projeto para que
ao redor dele as pessoas votem com consciência.
Nós
não caímos nos simplismo de vontades
eleitorais, ou partidárias, ou por afinidades
pessoais. Tem gente que diz: "pessoalmente a
Dilma é muito parecida com o Ciro... "
Isso não explica nada! Então, até
para não cair nesse tipo de reducionismo, nós
achamos que o debate político a ser feito daqui
a até outubro do ano que vem tem que ser sobre
a necessidade de um projeto para o país, para
que as pessoas saibam o que está em jogo e
que tipo de projeto nós temos que fazer avançar
daqui para a frente. Esse é o debate que estamos
fazendo entre nós.
Evidentemente,
que no caso do Rio Grande do Sul, a batalha será
mais dura, porque por todo o uso que fez da Brigada
Militar e do ministério publico estadual, o
projeto da Yeda (Crusius) foi não só
o da restauração do neoliberalismo,
mas dos fascistas. Depende de cada Estado, o maior
ou menor engajamento da militância. E isso se
dará, também, em função
das candidaturas estaduais. Os governadores tem muito
peso nas lutas sóciais do campo, já
que quem nos reprime são as polícias
estaduais.
[
Zé Dirceu ] Como o MST é um movimento
com grande inserção internacional, inclusive
pela Via Campesina, como vocês avaliam o cenário
internacional após dez meses da eleição
de Barack Obama e um pouco também sobre a América
Latina e a relação com as eleições
do ano que vem?
[ Stédile ] Nós
estamos muito preocupados. Estamos vindo de dez anos
de avanços das forças progressistas,
mas esse avanço registrado a partir de 1999
com a subida do presidente Hugo Chávez (Venezuela)
até hoje, não veio acompanhado com o
reacenso do movimento de massas. Talvez, na Bolívia
aconteceu, mas nos demais países não.
Isso criou uma dificuldade maior. Ao se dar conta
de que as massas não vieram para o reacenso,
para participar mais da atividade, evidentemente,
o império está tentando reestaurar o
seu projeto para a América Latina.
Os
EUA tinham sido derrotados nesses dez anos. Foram
derrotados na ALCA e agora tentam recompor esse projeto,
que inclusive, independe da postura pessoal do Obama.
O projeto do império é o do capital
imperialista, do Estado belicista norte-americano.
Há alguns dias, ouvi uma palestra na qual o
orador dizia que toda a tentativa da economia norteamericana
de sair da crise é aumentando a indústria
bélica. Nem é pela saúde, nem
por um Bolsa Família, eles poderiam criar uma
bolsa família para os pobres norte-americanos
e incentivar o mercado interno ou frear as importações
da China. Não. A alternativa principal que
o capital americano está tomando para sair
da crise é o aumento da sua produção
bélica e com isso, ter mais armas e munição.
Isso
é um perigo, porque eles vão estimular
conflitos até para reativar sua economia. Nesse
cenário, nós vemos os EUA acelerando,
mudando o passo. O caso de Honduras, por exemplo,
todos sabemos que a base americana se envolveu, o
embaixador se envolveu. No Panamá, idem. Essas
bases da Colômbia (seis norte-americanas) são
uma ofensa a todo o continente, um caso inadmissível.
Nessa
questão concordamos com a avaliação
do Chávez, de que é uma tentativa de
transformar a Colômbia numa Israel na América
do Sul. Sobretudo uma tentativa de levar a uma guerra
fria entre a Colômbia e a Venezuela. É
o pior dos mundos porque obriga a Venezuela a gastar
dinheiro público em armamento, tanque e helicóptero
ao invés de comprar casa e construir metrô.
Então,
estimula-se uma guerra fria regional para barrar o
processo venezuelano. Pelo que se vê pelo Chile
e o Peru, trata-se de reativar as direitonas locais
para tentar retomar o controle. Não se sabe
até que ponto essa mesma direita americana
vai insuflar nossas eleições. É
possível que aqui no Brasil também.
Com isso, o tom ideológico aumenta.