Chatham
House Prize 2009
Discurso
do Presidente da República, Luiz Inácio
Lula da Silva, na cerimônia de recebimento do
prêmio
Chatham House
Londres-Inglaterra, 05 de novembro de 2009
Sua Alteza Real, duque de Kent,
Lorde Robertson, presidente de Chatham House,
Lorde Mandelson, primeiro-secretário de Estado
do Reino Unido,
Dra. DeAnne Julius, presidente executiva do Chatham
House,
Amigos brasileiros,
Amigos do Reino Unido,
Ministros,
Minhas
primeiras palavras são de agradecimento pelo
prêmio que me está sendo atribuído
pela Chatham House.
Ele é mais do que uma distinção
pessoal. É uma homenagem ao povo brasileiro,
pois esse povo foi o principal protagonista da grande
transformação pela qual o Brasil está
passando nos últimos anos. Transformação
que deu a meu país a visibilidade internacional
que hoje desfrutamos.

Amigas
e amigos,
No passado, durante décadas, o Brasil cresceu
a taxas excepcionais, mas não foi capaz de
distribuir renda. Chegamos a estar entre as oito maiores
economias do mundo, mas nossa sociedade era uma das
mais desiguais do Planeta. Crescíamos, mas
com inflação e forte desequilíbrio
fiscal.
Nosso crescimento vinha quase sempre acompanhado de
forte vulnerabilidade externa. Crises internacionais
a milhares de quilômetros de distância
nos colocavam de joelhos. Pior que tudo: poucas vezes
fomos capazes de associar o crescimento à democracia.
Era chegada, assim, a hora de mudar essa equação
perversa. Depois de mais de duas décadas de
estagnação, retomamos o crescimento
econômico, mas soubemos combinar esse crescimento
com justiça social.
Invertemos a fórmula de que era necessário
primeiro crescer para depois distribuir. Mostramos
que a distribuição de renda podia ser
um fator fundamental do crescimento.
Transferimos renda para mais de 40 milhões
de brasileiros por meio do Estado, com o programa
Bolsa Família. Aprofundamos as políticas
sociais de proteção aos desvalidos da
sociedade. Aumentamos o salário mínimo
sempre acima da inflação. Fizemos crescer
sete vezes os recursos para a agricultura familiar.
Ampliamos de forma excepcional o crédito popular.
A conjugação desses e de outros movimentos
provocou uma mudança social profunda. Mais
de 20 milhões de pessoas saíram da exclusão
social e passaram a integrar o que alguns chamam de
“nova classe média” brasileira.
O Brasil dispõe hoje de um poderoso mercado
de bens de consumo de massas, que foi um fator fundamental
para que enfrentássemos vitoriosamente a grave
crise financeira que se abateu sobre o mundo há
um ano.
Diferentemente do passado, foi possível que
esse processo de crescimento com inclusão social
se fizesse sem desequilíbrios macroeconômicos.
A inflação foi e está controlada.
A relação da dívida com o PIB
teve uma evolução muito positiva. A
taxa de juros sofreu considerável redução.
Deixamos também de ser vulneráveis externamente.
De eternos devedores, passamos à condição
de credores internacionais.
Esse objetivo foi alcançado por meio de um
vigoroso impulso a nosso comércio exterior,
que acompanhou nossa política externa. Diversificamos
mercados, passamos a ter uma presença comercial
global e equilibrada nos cinco continentes.
Mas o importante é que conseguimos realizar
toda essa mudança econômica e social
em um ambiente democrático, expandindo e aprofundando
a nossa democracia.
Toda essa grande transformação não
seria possível se não tivéssemos
caminhado contra a corrente das tendências dominantes
quando iniciamos o nosso governo.
Aquelas tendências que celebravam as excelências
do mercado como único fator regulador das relações
econômicas e sociais. Aquelas tendências
que pregavam o Estado mínimo, que consideravam
o Estado como um estorvo, que viam a política
como um simples jogo de interesses corporativos e
não como uma atividade essencial do ser humano.
Antes mesmo que a crise econômica eclodisse
já havíamos entendido que era chegada
a hora da política. Antes mesmo que a anarquia
dos mercados desregulados levasse a economia mundial
à beira do abismo, tínhamos claro que
a ação do Estado seria essencial para
a definição de um verdadeiro projeto
nacional de desenvolvimento.
Não queríamos, e não queremos,
um Estado que intervenha abusivamente no sistema produtivo,
ou busque substituí-lo. Necessitamos, no entanto,
de um Estado que induza e regule o desenvolvimento
dos países, um Estado democrático, com
fortes mecanismos de controle e de participação
social, de um Estado capaz de encarnar o verdadeiro
interesse nacional. A ele compete definir, em sintonia
permanente com a sociedade, as linhas mestras do desenvolvimento
nacional.
Exemplo dessa necessária e saudável
presença do Estado na economia é o Plano
de Aceleração do Crescimento, que lançamos
em 2007 e que até o próximo ano terá
investido em torno de US$ 300 bilhões na completa
renovação de nossa infraestrutura viária,
portuária, energética e social. Na mesma
direção estão nossos ambiciosos
projetos de construir um milhão de moradias
até 2010 no nosso país.
Além dos efeitos concretos que essas iniciativas
têm na infraestrutura do País, o PAC
e os programas habitacionais se transformaram em importante
política contracíclica, que ajudou-nos
a melhor enfrentar a crise internacional.
Ao Estado cabe coordenar a implementação
de políticas agrícolas e industriais,
propor as grandes orientações em matéria
de saúde, educação, ciência
e tecnologia. É o Estado democrático
que zela pela defesa e pela segurança interna
do país. É ele, finalmente, que estabelece
de que forma o país irá se situar no
mundo, pois está claro que não poderemos
mais viver isolados.
Por essa razão, a política externa é
importante. Ela é um elemento fundamental de
nosso desenvolvimento.
Queremos contribuir para a construção
de um mundo mais justo e solidário. É
ilusão imaginar que podemos ser uma ilha de
bem-estar em meio a um mar de expectativas frustradas.
Decidimos associar nosso desenvolvimento ao da América
do Sul, nosso entorno imediato. Por suas enormes reservas
energéticas, por suas riquezas minerais e pelo
peso de sua agricultura, a América do Sul pode
vir a ser um importante componente de um mundo multipolar
em construção.
Somos uma região de paz, sem armas de destruição
em massa, sobretudo nucleares. Temos, pois, autoridade
política e moral para propugnar um desarmamento
global.
Não somos atravessados por conflitos étnicos
ou religiosos. Todos os nossos governantes foram eleitos
em pleitos limpos e com ampla participação
popular.
Em meio a dificuldades naturais, estamos realizando
um processo de integração solidária
do continente, sem pretensões hegemônicas,
sem busca de liderança, perseguindo, sobretudo,
a redução das assimetrias que ainda
separam os países da região.
Na condição de segunda nação
de população afro-descendente do mundo,
fiz um forte movimento em direção à
África, continente ao qual estamos ligados
profundamente e com o qual temos enorme dívida.
Ao invés de imiscuir-nos na vida de
outros países – distribuindo atestados
de bom ou mau comportamento – buscamos, pelo
diálogo e pela negociação, contribuir
para que prevaleça a paz, a democracia e a
justiça social.
É o que estamos fazendo, junto com outros países,
no Haiti e na Guiné-Bissau. Foi o que fizemos,
com o conjunto das nações sul-americanas,
para resolver a grave crise interna em que se viu
mergulhada a Bolívia há pouco tempo
atrás.
Não esperem armas do Brasil. Não
hesitem, no entanto, em demandar nosso apoio político,
nosso esforço negociador.
Não hesitem, tampouco, em solicitar nossa ajuda
para diversificar suas economias, fortalecer a infraestrutura,
aprimorar programas sociais, avançar em novas
tecnologias.
Amigas e amigos,
A história da Humanidade acelerou seu ritmo
de forma impressionante nas duas últimas décadas.
Com extrema rapidez, passamos de um mundo bipolar
para um mundo unipolar.
Hoje vivemos um período de transição.
Período complexo, pois atravessado por muitas
crises: a crise energética, a crise alimentar,
a crise ambiental. Todas elas agravadas pela crise
financeira e econômica desencadeada em 2008.
A superposição dessas crises se torna
mais dramática na medida em que a humanidade
não dispõe de mecanismos de governança
estáveis, representativos e eficazes.
As instituições multilaterais surgidas
no final da Segunda Guerra Mundial envelheceram. Não
estão mais adequadas à nova geografia
econômica e política mundial deste princípio
deste século.
As instituições de Bretton Woods somente
agora começam a ser renovadas, mas com excessiva
lentidão. Elas fracassaram por não haver
previsto e prevenido a grave crise que se abateu sobre
a Humanidade.
O rigor que o FMI e o Banco Mundial exerceram sobre
os países pobres e em desenvolvimento, no passado,
diferiu bastante da complacência que tiveram
em relação à tragédia
anunciada que veio a afetar os países ricos.
O G-20, possivelmente, impediu que o pior ocorresse,
mas há muito o que fazer. Os pequenos sinais
de melhoria da economia podem impedir a realização
de reformas de fundo, sem as quais a Humanidade poderá
reincidir, de forma mais grave, na crise.
São necessários efetivos mecanismos
de regulação, fim dos paraísos
fiscais, combate implacável ao protecionismo,
o que nos coloca a necessidade de concluir a Rodada
de Doha. O Fundo e o Banco têm de renovar suas
concepções e tornar suas direções
mais representativas do mundo de hoje.
Quando falta pouco mais de um mês para a reunião
de Copenhague, é hora de saber se os países
que lá comparecerem estarão à
altura dos desafios da hora atual.
Os países desenvolvidos – aqueles que
realizaram sua revolução industrial
há mais de 200 anos – têm responsabilidades
diferenciadas e maiores no combate ao aquecimento
global.
Eles terão de realizar um considerável
esforço para alterar padrões de produção
e, quem sabe, de consumo. Não podem querer
que os países pobres e em desenvolvimento assumam
os mesmos compromissos que eles.
Por meio da transferência de tecnologia, os
países ricos podem ajudar as economias em desenvolvimento.
A compra de créditos-carbono não pode,
porém, transformar-se em passaporte para a
irresponsabilidade ambiental por parte dos países
mais ricos.
O Brasil chegará a Copenhague com propostas
claras. Os êxitos atuais na redução
do desmatamento de nossas florestas dão credibilidade
à nossa disposição de reduzi-lo
em 80% até 2020.
Os países amazônicos estão trabalhando
para definir uma posição comum sobre
a mudança do clima. Queremos uma Amazônia
protegida, mas soberana, sob o controle dos países
que a integram.
As grandes descobertas de petróleo na camada
pré-sal não nos afastarão de
nossa política de enfatizar a produção
de biocombustíveis e de energia elétrica.
Nossa matriz energética é predominantemente
proveniente de fontes renováveis.
Não sucumbiremos, tampouco, à maldição
do petróleo. Os grandes recursos provenientes
da exploração dessas novas riquezas
serão destinados aos brasileiros de amanhã.
Vamos usá-los na ampliação das
políticas sociais, na qualificação
de nosso sistema educacional, na pesquisa científica
e tecnológica e na difusão da cultura.
Amigas e amigos,
O mundo multilateral e multipolar com o qual sonhamos
exigirá uma profunda reforma de suas instituições
políticas, especialmente das Nações
Unidas. Um Conselho de Segurança reformado
e ampliado poderá ser mais efetivo no enfrentamento
das crises que comprometem a paz no mundo. Ele tem
de refletir a nova correlação de forças
internacional.
O Brasil está ocupando pela décima vez
uma vaga no Conselho. Reivindica, junto com outros
países, uma presença permanente neste
organismo que tem a responsabilidade maior de zelar
pela segurança coletiva da Humanidade.
Nossa luta pela mudança dos mecanismos de governança
mundial não tem a pretensão de liderança,
da busca de hegemonia. Mas não renunciamos
à nossa vocação universalista.
Como diria um grande poeta brasileiro chamado Carlos
Drummond de Andrade, temos apenas duas mãos,
mas temos o sentimento do mundo.
Muito obrigado.