Em
dez anos, preço de passagem aérea
cai 34% no Brasil
Apesar de a aviação comercial brasileira
ter presenciado dois dos maiores acidentes aéreos
de sua história, caos nos aeroportos e o fim
de alguns de seus maiores protagonistas nos últimos
10 anos, um estudo da Bain & Company mostra que
o ganho de eficiência das companhias aéreas,
nesse período, também trouxe boas novas.
A
análise mostra que a acirrada competição
no setor aéreo vai se traduzir em um recuo
de 34% no preço das passagens de 1998 até
o fim deste ano. E isso vai acontecer mesmo com o
aumento de 224% no preço do barril do petróleo
no mesmo intervalo de tempo.
Essa
previsão de queda no preço das passagens
leva em consideração a sazonalidade
dos últimos três meses do ano, período
de alta temporada, quando há um aumento médio
de tarifas de até 10%, segundo a Bain. A Gol,
por exemplo, já anunciou que planeja um aumento
de 20% no preço dos bilhetes aéreos
até o final do ano, após uma intensa
disputa por passagens mais baratas travada principalmente
com a TAM, mas que foi reforçada pela estreia
da Azul, em dezembro de 2008, e pelo crescimento de
companhias como OceanAir e Webjet.
A
Agência Nacional de Aviação Civil
(Anac) também constatou a redução
dos preços das passagens. Levantamento da Anac
mostra que o valor pago pelos passageiros por quilômetro
transportado (yield tarifa, no jargão do setor)
foi de R$ 0,41 em setembro, o que representou um recuo
de 29,3% em relação ao mesmo período
do ano passado.
Esse
índice é atualizado mensalmente de acordo
com o Índice de Preços ao Consumidor
Amplo (IPCA), que mede oficialmente a inflação
do país. A Anac também mediu a tarifa
média praticada nas 67 ligações
aéreas monitoradas por ela. Em setembro, o
valor médio foi de R$ 267, sendo que no mesmo
mês do ano passado era de R$ 415,18, uma queda
de 35,6%.
Num
cenário de passagens mais em conta, o volume
de passageiros embarcados em voos domésticos
vai mais do que triplicar de 1998 até o fim
deste ano, de 16,5 milhões para quase 60 milhões.
As projeções foram feitas com dados
acumulados até junho.. Mas toda essa evolução,
segundo o estudo da consultoria, não foi suficiente
para melhorar a infraestrutura do sistema aéreo.
"O
que levou a essa queda de tarifa foi a substituição
das empresas ineficientes pelas eficientes, leia-se
Gol e TAM", afirma o especialista em aviação
da Bain & Company, André Castellini.
Em
1998, lembra ele, TAM, Transbrasil, Varig e Vasp formavam
o bloco das empresas de grande porte que disputavam
os voos domésticos. Dez anos mais tarde só
restaram TAM e Gol - esta última comprou a
Varig em 2008 - nesse grupo. No mercado internacional,
a hegemonia da Varig na década passada foi
substituída pelo atual predomínio da
TAM.
Castellini
afirma que o barateamento das passagens e o aumento
do fluxo de passageiros foram possíveis porque,
em 10 anos, a utilização diária
dos aviões saltou de 6,9 horas para 12,9 horas,
uma expansão de 87%. A oferta média
de assentos por quilômetro avançou de
89 milhões, em 1998, para 515 milhões,
no ano passado, o que representa um crescimento de
479%. A receita bruta das aeronaves, por sua vez,
era de R$ 21 milhões e passou para R$ 99 milhões
no mesmo período de comparação.
"O
que permitiu esse cenário foi a redução
de custos e a rivalidade muito acentuada das duas
principais empresas. E essa rivalidade se manifestou
na ampliação da frota", diz Castellini.
O
aumento do número de aviões na aviação
comercial brasileira foi constatado pela Bain. Segundo
a consultoria, a agressividade das empresas fez com
que a oferta de assentos por quilômetro crescesse
mais do que o dobro da variação anual
do Produto Interno Bruto (PIB) desde 2006.
No
primeiro semestre deste ano, enquanto o PIB recuou
1,2%, a oferta de assentos avançou 11% e a
receita por passageiro por quilômetro teve expansão
de 4%.
Com
as compras de aviões novos, TAM e Gol têm
atualmente uma das frotas mais modernas do mundo,
de 5,9 anos e 7,4 anos respectivamente. Só
perdem para a irlandesa Ryanair (2,8 anos) e para
a americana JetBlue (4,1 anos). Os dados são
de setembro de 2009, de um site especializado em aeronaves,
o airfleets.
O
desenvolvimento das companhias aéreas, porém,
traz um dado preocupante. Castellini afirma que "pouco
ou nada se fez" para melhorar a infraestrutura
dos aeroportos nos últimos 10 anos. O estudo
da Bain alerta para a necessidade de a capacidade
aeroportuária ter de triplicar em 20 anos para
poder acomodar a demanda que será gerada no
período.
A
Copa do Mundo de Futebol de 2014 e a Olimpíada
de 2016, no Rio de Janeiro, acrescenta a análise,
"tornam ainda mais urgentes" as melhorias
na infraestrutura aeroportuária. E como prioridade
é citada a ampliação da capacidade
dos terminais de São Paulo, que já estão
operando no limite.