Venezuela
Nosso
sócio é um desastre
Fomos
ver de perto como funciona a economia do novo membro
do Mercosul. O cenário é chocante. A
cubanização da Venezuela já destruiu
a produção de bens e alimentos
Duda
Teixeira,
de Cidade Guayana
O
Brasil acaba de aceitar um sócio de alto risco.
Na quinta-feira da semana passada, a Comissão
de Relações Exteriores do Senado aprovou
a adesão da Venezuela ao Mercosul. O assunto
seguirá agora para votação no
plenário, onde a maioria governista deve referendar
a decisão. Como Uruguai e Argentina já
deram sinal verde, só falta o aval do Senado
do Paraguai. Não se tem ideia de como o coronel
Hugo Chávez fará para cumprir as cláusulas
democráticas do Mercosul. Seu governo é
autoritário, persegue opositores, jornalistas
e pretende prolongar-se indefinidamente. Como sócio,
Chávez terá poder de veto nos acordos
comerciais entre os países do Mercosul e o
restante do mundo – e não é difícil
imaginar o estrago que sua preferência pelas
piores parcerias (Coreia do Norte, Irã e Cuba)
pode causar. Felizmente, Chávez não
é a Venezuela, e um dia o país voltará
à democracia e ao progresso.
Até
que isso ocorra, Chávez será outra perturbação
numa instituição estagnada. Não
há acordo entre os membros do Mercosul sobre
os próximos passos, as políticas comuns
nunca saíram do papel e cada governo se queixa
do protecionismo do vizinho. Na campanha presidencial
no Uruguai, falou-se abertamente em deixar o bloco
e assinar livremente acordos com os Estados Unidos
e a União Europeia. Na semana passada, o Brasil
adotou represálias comerciais contra a Argentina,
que há anos impõe restrições
à entrada de produtos brasileiros. A Venezuela
é um bom parceiro comercial do Brasil. Nos
últimos dez anos, a exportação
de produtos brasileiros para aquele país multiplicou-se
quase dez vezes. O superávit a favor do Brasil
beira os 5 bilhões de dólares. Nada
a ver com o Mercosul. Muitos dos negócios foram
facilitados pura e simplesmente pela destruição
da capacidade produtiva doméstica em razão
do malfadado socialismo do século XXI de Chávez.
Em
cinco anos, desde que o coronel se declarou comunista,
mais de cinquenta companhias de grande porte e 2,5
milhões de hectares de terra foram estatizados.
Mais de 250 000 cooperativas foram criadas para substituir
as empresas "burguesas". O resultado é
desastroso. A produção das companhias
nas mãos do estado caiu 40%, enquanto o número
de funcionários duplicou. De todas as terras
ocupadas, apenas 2% continuam a produzir. Das cooperativas
criadas, 96% já foram desfeitas. Não
se pode acusar Chávez de ter mentido sobre
suas intenções. "Produtividade
e rentabilidade são conceitos do malvado capitalismo
e do neoliberalismo", disse o coronel, com sinceridade.
VEJA
foi ver de perto o processo de cubanização
em curso no país que aceitamos como sócio.
Durante sete dias, uma equipe de jornalistas visitou
indústrias e fazendas cubanizadas em oito cidades.
Um caso exemplar é a Alcasa, fábrica
de alumínio em Cidade Guayana, polo industrial
a 530 quilômetros de Caracas. Em 2005, o controle
da estatal foi entregue aos trabalhadores em regime
de cogestão. A primeira providência deles
foi realizar uma eleição para a escolha
dos cargos de direção. A título
de preparação para os novos cargos,
os eleitos receberam cursos sobre o "Pensamento
econômico de Che Guevara" e de guerrilha,
pomposamente rebatizada de "guerra assimétrica
contra o imperialismo". Na visão do então
presidente da companhia, o professor de educação
física Carlos Lanz, a prioridade nunca foi
produzir, e sim "criar pequenas unidades que
possam empregar armamentos básicos: fuzis e
lança-foguetes, ou em seu lugar explosivos
de maior escala".
Uma
unidade de milicianos foi montada dentro da empresa,
comandada pelo chefe de RH. O número de empregados
dobrou, enquanto a produção desabava.
Na semana passada, das 684 células de produção
de alumínio, 316 estavam paradas por falta
de manutenção. "Estamos no meio
de um processo, aprendendo como as coisas funcionam",
explicou a VEJA Alcides Rivero, um dos coordenadores
do Controle Obreiro, a organização de
empregados. O descaso com os direitos trabalhistas
é um ponto em comum nas empresas socialistas.
A falta de equipamento de segurança tornou-se
crônica. Na PDVSA, a estatal petroleira, funcionários
que deixam o turno precisam entregar as botas de borracha
aos que entram. Os coletes salva-vidas dos que trabalham
no mar estão em trapos. Muitas vezes, os próprios
empregados compram capacetes e equipamentos de proteção.
"Os equipamentos de segurança na estatal
nunca foram bons. Agora, estão ainda piores",
disse a VEJA José Bodas, dirigente sindical
da PDVSA.
Os
salários estão congelados, apesar de
a inflação anual ultrapassar os 30%.
Quem ousa reclamar ou promover greve é punido.
Rubén González, sindicalista faz quinze
anos na Ferrominera Orinoco, em Cidade Piar, está
há um mês em prisão domiciliar.
Chavista no passado, González organizou uma
greve em agosto pedindo o pagamento retroativo de
um aumento salarial. Depois da paralisação,
foi preso por seis dias sob acusação
de incitar a delinquência. Solto, foi condenado
à prisão domiciliar. "Meu crime
foi defender os trabalhadores", disse González
a VEJA. Aos 50 anos, ainda é membro do PSUV,
o partido de Chávez. "Isso não
é socialismo, porque não há igualdade.
Nós, trabalhadores, somos discriminados",
diz. Até o momento, o governo chavista já
processou 64 dirigentes sindicais. Nas palavras do
jornalista Damián Prat, que escreve no Correo
del Caroní, Chávez entrará para
a história por ter criado o "estatismo
selvagem".
A
devastação chavista é ainda mais
virulenta no campo. As invasões de terra estão
a cargo das Forças Armadas. Há sete
meses, Orlando José Polanco teve sua fazenda
de 2.200 hectares no município de Simón
Planas tomada por 1.000 soldados. Logo depois chegaram
quinze tratores para começar a arar a terra.
Com o movimento das máquinas ao fundo, Hugo
Chávez gravou no local o Alô Presidente,
seu programa dominical na televisão. Uma semana
depois, todos os tratores estavam quebrados. "Há
muitas pedras no solo aqui. É impossível
arar ou plantar feijão", diz Polanco.
"Eles não sabem o que fazem." A casa
do vigia, dentro da propriedade, transformou-se em
um posto da polícia militar. A 10 metros de
distância ainda se vê um ninho de metralhadoras,
deixado pelo Exército.
Nem
os pequenos proprietários estão a salvo.
No mês passado, um helicóptero Superpuma
da Aeronáutica, com capacidade para vinte pessoas,
pousou na fazenda San José, de 71 hectares,
em Barquisimeto, levando a bordo o presidente do Instituto
Nacional de Terras e o ministro da Agricultura. Bandeiras
foram hasteadas, houve discursos e, uma semana depois,
chegaram 250 integrantes da milícia campesina.
Eles vestem camisa vermelha, pintam o rosto com tinta
de camuflagem e cantam hinos revolucionários.
"Aconteceu tanta coisa em apenas um mês
que acho que não tenho mais medo de nada. Estou
pronto para o pior", disse a VEJA Oscar Martinez,
que plantava milho e criava gado para corte na San
José. Martinez e outros agricultores lembram
com saudade de quando a Venezuela exportava café,
milho, arroz e laranja. Antes de Chávez, o
país produzia 90% do açúcar e
76% da carne que consumia. Hoje, a produção
doméstica só dá conta de 30%
e 45%, respectivamente.
Os
apagões quase diários e sem aviso prévio,
que duram entre duas e cinco horas, são outro
exemplo da ineficiência socialista. Apenas a
cubanização explica como um país
instalado sobre a quinta maior reserva de petróleo
do planeta padece de escassez de eletricidade. A incapacidade
administrativa do chavismo pode ser medida em números.
Por falta de manutenção, só está
em operação metade das vinte turbinas
de Guri, a principal hidrelétrica do país.
A maior termelétrica, Planta Centro, opera
com reles 6,5% da capacidade instalada. Na Electricidad
de Caracas (EDC), a produção já
é 5% menor que a de dois anos atrás,
quando foi estatizada. A Edelca, estatal de geração
de energia hidrelétrica, era considerada um
exemplo de eficiência. No ano passado, pela
primeira vez, não registrou lucro. Seus fornecedores
não recebem há quatro meses. Nos últimos
quatro anos, o número de funcionários
subiu de 3.500 para 5.600.
A
única consequência positiva da devastação
do sistema produtivo é a queda da popularidade
de Chávez. Com os alimentos escassos, salários
congelados, falta de água e luz, os venezuelanos
começaram a entender o significado real do
que diz o presidente falastrão. Segundo as
pesquisas, apenas 17% votariam por Chávez se
as eleições fossem hoje. Há um
mês, eram 31%. A desastrosa transição
para o socialismo só não levou o país
ao colapso total porque o presidente conta com o dinheiro
da venda do petróleo. Estima-se que Chávez
tenha gasto 900 bilhões de dólares em
dez anos, metade dos quais proveniente da exportação
petrolífera. Em termos de desabastecimento,
a vida no país assemelha-se bastante à
de Cuba: há escassez de papel higiênico,
sabonetes, farinha e leite. Nos supermercados estatais,
a lista com os produtos disponíveis é
fixada na porta a cada manhã. Quase todos os
alimentos são importados. A diferença
entre Venezuela e Cuba é que o primeiro país
tem quase o triplo da população do segundo
e guarda petróleo em seu subsolo. Com gente
e dinheiro, a Venezuela é um mercado muito
mais atraente para o Brasil que a ilha caribenha.
Já Chávez é tão ruim para
seu povo quanto os caquéticos irmãos
Castro.