Mais ativismo de Lula em Cuba
Alon Feuerwerker
O governo fará bem se olhar para o tema de
Cuba sem preconceitos. Aliás, Lula fez questão
de reafirmar que nenhum movimento dele em política
externa é movido a ideologia
O diário madrilenho El País transcreveu
um diálogo entre o presidente democrata dos
Estados Unidos, Barack Obama, e o colega espanhol,
o socialista José Luis Zapatero. O assunto
era Cuba, que entrou na pauta porque o chanceler da
Espanha, Miguel Ángel Moratinos, estava de
viagem marcada para Havana.
Em
resumo, o que o chefe da Casa Branca mandou Moratinos
avisar aos dirigentes cubanos foi o seguinte: ou eles
dão passos visíveis para abrir o regime,
ou será complicado para Washington seguir no
caminho da distensão.
O
impasse cubano é simples de explicar. A cúpula
em Havana quer relações econômicas
normais com os Estados Unidos, para oferecer prosperidade
à ilha e solidificar o poder do Partido Comunista.
Já a Casa Branca topa avançar no caminho
da abertura econômica, desde que acoplada a
uma transição política que, lá
na frente, conduza os cubanos a um sistema democrático,
com a possibilidade real de alternância no poder.
Disso o PC não quer nem ouvir falar.
É óbvio que a Obama faltará em
algum momento apoio político para uma distensão
com os Castro se a estratégia atual não
mostrar resultados. Daí que o presidente americano
tenha sido claro na conversa com seu par espanhol.
E
nós? Bem, na lista de assuntos a que a política
externa brasileira assiste com passividade estupenda,
Cuba ocupa uma das primeiras posições,
junto com a ameaça de nuclearização
regional (assunto já tratado aqui). A passividade
vem embrulhada num ativismo de fachada, que diz buscar
o fim puro e simples do bloqueio econômico.
Sem contrapartidas. Pois, afinal, Cuba deve exercer
plenamente sua soberania.
Mas
o desenvolvimento da crise política em Honduras,
desencadeada pelo golpe de Estado, mandou ao arquivo
os princípios da não ingerência
e da autodeterminação. E Luiz Inácio
Lula da Silva está agora — vejam só!
— diante de uma bela oportunidade: usar o capital
acumulado e o novo ambiente de cooperação
regional para ajudar Barack Obama a obter uma transição
política negociada em Cuba.
Será
o caminho mais curto para Lula ganhar o seu próprio
Nobel da Paz. Desde, é claro, que nosso presidente
considere que o melhor para Cuba é um regime
plenamente democrático, com ampla liberdade
de organização e expressão, e
com o fim do monopólio do poder do PC.
Os defensores do governo cubano argumentam que operar
essa transição sem garantias seria colocar
em risco a soberania da ilha caribenha. E que o primeiro
passo é simplesmente os Estados Unidos levantarem
o bloqueio.
Talvez
não seja uma posição realista,
de alguns. Ou talvez embuta a ilusão, de outros,
de que com a economia indo bem haverá um caminho
para manter intocado o sistema político cubano.
Na
conversa com Zapatero relatada pelo El País,
Obama opinou que a América Latina vai bem,
que está saindo satisfatoriamente da crise
e que asinstituições democráticas
se consolidam, com exceção naturalmente
do caso hondurenho. Mas resta Cuba como um problema
sem solução.
O
governo Lula fará bem se olhar para o assunto
sem preconceitos, deixando de lado o viés ideológico.
Aliás, o presidente fez questão de reafirmar
em sua entrevista mais recente que nenhum movimento
dele em política externa é movido a
ideologia.
Então, vamos aproveitar. E agir. Interessa
ao Brasil que o impasse cubano seja um tema superado,
uma página virada.
A
guerra acabou
A eleição uruguaia vai para o segundo
turno, entre o candidato da esquerda e o liberal.
A novidade foi o crescimento da direita, ainda que
ela tenha ficado fora da decisão. A esquerda,
que já governa o país, é favorita
para continuar no poder.
Mas
os uruguaios não votaram só para presidente.
Houve também dois referendos. A maioria rejeitou
implantar o voto dos emigrados e também se
recusou a anular a anistia para agentes do estado
que cometeram crimes na ditadura dos anos 70-80 do
século passado.
É um assunto interno do Uruguai, mas com reflexos
continentais. E a decisão dos eleitores uruguaios
é um serviço prestado à consolidação
democrática na América do Sul.
Lá, como aqui, não é justo nem
razoável impedir que familiares das vítimas
da violência no período ditatorial saibam
exatamente o que aconteceu com seus entes queridos
e recebam a justa reparação. Mas esses
são direitos privados, que devem ser reclamados
no âmbito da Justiça.
Outra coisa, bem diferente, é querer reabrir
um processo político já encerrado. Uma
guerra civil que, como todas as guerras, esteve longe
de ser bonita. E que felizmente acabou.