O
ministro Nelson Jobim (Defesa) disse ontem abertamente
que tem dúvidas de que os EUA vão
cumprir a promessa de transferir tecnologia
caso o Brasil opte pela compra dos caças
americanos da Boeing. "O problema com os
Estados Unidos é o passado. O passado
é o grande exemplo de embargo em transferência
de tecnologia. Agora hoje assistimos a isso
aqui: as informações que tivemos
no CTEX em relação a alguns produtos"
[que os EUA venderam, mas não transferiram
a tecnologia], disse Jobim no Centro Tecnológico
do Exército, no Rio de Janeiro.
Um
caso simbólico foi o veto dos EUA à
venda de aviões Super Tucanos, que tinham
componentes americanos, à Venezuela.
Jobim disse que ainda não recebeu da
aeronáutica os relatórios técnicos
com a avaliação dos três
caças -o francês Rafale, da Dassault,
o Super Hornet, da Boeing, e o sueco Gripen
NP, da Saab. De acordo com ele, esse material
deve ser entregue a ele no fim do mês.
Segundo Jobim, "se não houver nenhuma
objeção técnica, a decisão
[da licitação] é política".
Ao conversar com os oficiais do CTEX, Jobim
fez questão de perguntar se tinham componentes
estrangeiros e como era a transferência
de tecnologia.
Em
vários casos, disse, "tivemos informações
de que uma empresa americana só poderia
fornecer daqui a dez anos, pelo preço
altíssimo, o que mostra que são
mecanismos de embargo. Isso faz parte do jogo.
Todos os países do mundo não querem
que os outros se desenvolvam, mas o Brasil vai
se desenvolver tecnicamente", afirmou.
A
Folha ouviu um alto oficial das Forças
Armadas que relatou diversos problemas com os
EUA neste assunto -e citou o caso da compra
de quatro helicópteros Blackhawk adquiridos
pelo Exército em um pacote que previa
outras seis aeronaves. O contingenciamento de
recursos impediu o restante do negócio:
segundo esse militar, os norte-americanos se
recusaram a trocar o motor e a atualizar os
helicópteros. Outros episódios
em que fabricantes norte-americanos dificultariam
as vendas e o acesso a novas tecnologias são
frequentes, disse.
Ontem,
o jornal francês "Libération"
publicou que a Dassault reduziu em 40% o valor
do avião, de 90 milhões para 50
milhões. A Dassault nega.