Com a expectativa, para breve, do anúncio
da companhia vencedora da concorrência
para fornecer os novos caças da Força
Aérea Brasileira, é frenética
a movimentação dos lobbies concorrentes
para conseguir qualquer vantagem nos últimos
dias. Como as últimas versões
das propostas foram entregues em setembro e
está vedado o acesso das empresas à
qualquer oficial da FAB, a disputa passou a
ser pela opinião pública.
As empresas sabem que uma escolha como essa
não é apenas pelo melhor avião,
com o melhor preço, talvez não
seja mais nem mesmo definida pela possibilidade
de transferência de tecnologia, o item
que mais tem despertado polêmica quanto
às propostas da americana Boeing, da
francesa Dassault e da suíça SAAB.
Qualquer que seja a decisão, levará
em conta um forte componente geopolítico.
Afinal, não estamos falando apenas de
um dos melhores contratos em disputa hoje no
mundo, de até 8 bilhões de dólares
a serem pagos por 36 aeronaves.
Estão em jogo a segurança nacional,
os interesses do Brasil e da América
do Sul e até mesmo a imagem internacional
do presidente Lula. Esse aspecto do jogo tornou-se
especialmente importante quando Lula, depois
de receber a visita do colega francês
Nicolas Sarkozy, declarou que o Brasil escolheria
os franceses. Até então, a Boeing
mantinha uma postura discreta, pelo menos em
público. No último mês,
a companhia parece ter acordado para o fato
de que estava comendo poeira em sua estratégia
de relações públicas, e
acionou sua metralhadora giratória contra
a concorrência.
Uma ofensiva de entrevistas (como
a que Michael Coggins, da Boeing, deu hoje para
a Folha) em que os americanos dizem,
sem meias palavras, que os concorrentes mentem,
foi desencadeada, assim como um lobby massivo
em Brasília junto a deputados, senadores
e oficiais. Nas últimas semanas, foram
distribuídos em Brasília 171 pacotes
com informações sobre o Super
Hornet, da Boeing, a generais da Força
Aérea, deputados e senadores.
Mais de 20 jornalistas foram convidados para
conversas (eu entre elas) com os executivos
da Boeing. Outros tantos políticos receberam
visitas da companhia, e todas as possíveis
fornecedoras brasileiras de componentes foram
acionadas para falar em favor da proposta americana.
Acompanhando o discurso a respeito das qualidades
do avião da Boeing, sempre há
uma lista das tais mentiras que os franceses
estão contando para levar o contrato
com o Brasil.
Entre elas estaria o fato de a transferência
tecnológica prometida pelos franceses
não ser tão ampla como parece,
e o fato de que o avião da Dassault ter
muito mais componentes feitos fora da França
(e em locais como os EUA e a Suíça,
por exemplo) do que os franceses gostam de admitir.
A nova postura chama a atenção
porque, oficialmente, a política da Boeing
é nunca falar mal do concorrente abertamente,
e sempre destacar suas próprias qualidades.
"Tivemos que abandonar essa postura para
poder reagir aos franceses.
Afinal, é como se estivéssemos
em meio à campanha política. É
preciso responder aos ataques", diz Michael
Coggins. Se acabar não dando certo, a
nova estratégia, no mínimo, terá
levantado o moral da tropa na reta final da
disputa. Os executivos da Boeing agora já
vêem alguma chance de vencer a proposta
francesa. Daqui para frente, pelo menos um diretor
da Boeing estará permanentemente no Brasil
para não deixar a campanha da empresa
perder fôlego.